Sem vencedor e sem polarização: o que o debate da Band revelou sobre a corrida pelo Governo do RN
Há uma obsessão em decretar vencedores depois de debates eleitorais. A não ser que um candidato dê uma verdadeira surra nos adversários, como ocorreu com Natália Bonavides em alguns debates de 2024, esse tipo de veredito costuma carregar mais militância do que análise. Na Band, não vi ninguém muito acima nem muito abaixo dos demais. E talvez procurar um vencedor seja justamente a forma menos interessante de analisar o que aconteceu.
Também é ingênua a ideia de que debate deveria ser um seminário acadêmico de propostas e bons modos. Campanha é disputa por atenção. Vale a frase de efeito, a provocação e a piada que produzam o corte capaz de circular no dia seguinte. Robério Paulino conhece essa lógica desde 2014, quando usava os debates para produzir momentos de repercussão em confronto contra o então candidato Henrique Alves. Desta vez, voltou a explorar sua capacidade retórica ao estilo metralhadora, embora tenha mantido alguns bate-bolas mais amistosos com Cadu.
Allyson: alvo principal e contra-ataque
Líder das pesquisas, Allyson Bezerra foi naturalmente um dos mais confrontados. Quando questionado sobre investigações e a busca e apreensão realizada pela Polícia Federal, procurou inverter a posição: contra-atacava, citava resultados de sua gestão em Mossoró e dizia querer discutir propostas. Sua melhor tirada veio ao desafiar os adversários a retirarem suas candidaturas caso nada fosse encontrado em seu celular apreendido. É uma aposta retórica que transmite confiança e, principalmente, rende um ótimo corte para as redes.
Allyson também mostrou que não pretende apenas se defender. Ele apresentou uma suposta investigação em andamento no TCE contra Cadu por ter aumentado o salário da categoria da qual faz parte durante a pandemia. É um tema que pode voltar durante a campanha.
Cadu: Lula na frente, Fátima no retrovisor
Cadu de Lula foi quem mais tentou nacionalizar a disputa. Demarcou sua ligação com Lula, associou Álvaro ao bolsonarismo e tentou empurrar Allyson para o mesmo campo, lembrando seus acenos a Bolsonaro e alianças políticas no tempo em que foi prefeito de Mossoró. Paralelamente, apostou na narrativa das “mãos limpas” para antagonizar com os questionamentos enfrentados pelos dois principais adversários.
Mas os rivais procuraram puxá-lo de volta ao RN, associando-o ao Governo Fátima. Cadu não fugiu: disse ter orgulho de participar da gestão e enumerou entregas. Aí está um dos grandes desafios de sua campanha: aproveitar a enorme força eleitoral de Lula no Estado sem deixar que a eleição se transforme num julgamento do governo do qual participou.
Álvaro: bolsonarismo até a página dois
Álvaro Dias foi confrontado por sua ligação com Flávio Bolsonaro, pelas obras de sua administração e pela engorda de Ponta Negra. Defendeu seu legado e chegou a levar uma fotografia para comparar a situação anterior da praia com a atual. Trata-se de fato de incrível amadorismo do seu marketing porque não é de bom tom estratégico apresentar cartazes na Tv. Isto porque, com qualquer editor de fotos hoje, a imagem dele segurando um papel pode ser refeita, colocando qualquer outro aspecto no lugar. Este blogueiro mesmo brincou no instagram, substituindo a figura do cartaz, pouco visível na prática, por uma fotografia de Flávio Bolsonaro, o seu presidenciável que ele anda escondendo ultimamente.
O momento mais curioso, porém, ocorreu quando afirmou que adotaria o “método Paulo Freire” para melhorar a educação do RN. Para alguém que insiste tanto na tese da polarização, até com pitorescas previsões, recorrer a um dos maiores símbolos atacados pelo bolsonarismo mostra os limites dessa narrativa. No debate concreto sobre o Estado, a divisão Lula versus Bolsonaro apareceu bem menos do que alguns imaginavam e tal como este missivista já antecipava.
O verdadeiro recado do debate
Não houve vencedor evidente nem desastre individual. Mais importante foi perceber as narrativas que começam a ganhar forma: Allyson aposta na gestão, no contra-ataque e até na vitimização diante dos ataques; Cadu tenta nacionalizar a disputa e carregar Lula para o centro do palco; Álvaro defende seu legado administrativo enquanto busca acomodá-lo à identidade conservadora; e Robério tenta transformar exposição em lembrança.
E há uma questão que nenhuma análise de comentarista consegue responder sozinha: como o eleitor interpretou tudo isso? Saber quem ganhou votos, perdeu votos ou melhorou sua imagem depois do debate exige pesquisa. O restante é impressão, muitas vezes contaminada pelas preferências de quem assiste.
O efeito mais evidente da Band talvez tenha sido outro: o tempo da política começou. Tanto que influenciadores de fora da bolha política já comentavam os episódios nas redes, os cortes começaram a circular e os candidatos mostraram as armas que pretendem utilizar. A campanha esquentou. Mas a disputa pelo Governo do RN está apenas começando.