Podcast revela gravações inéditas de esquema de lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro
Ao falar sobre o esquema de devolução de salários no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, Fausto Paes, pai de Luiza Souza Paes, ex-funcionária fantasma de Flávio Bolsonaro na admitiu que existia “erro” e “um milhão na conta” em conversa com a filha em janeiro de 2019, ao comentar o avanço das investigações sobre peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa sobre o gabinete do “01” na Alerj.
“Tem erro. Tem 1 milhão na conta e tal. Mas pô, não é nem sombra dos dois assessores lá do cara da Alerj que movimentaram 45 milhões na conta. Porra, isso ninguém fala, entendeu?”, afirmou ele para a filha, em uma mensagem de áudio, em janeiro de 2019. O erro, ao qual Paes se referia, era o dinheiro apontado no relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras como movimentação atípica na conta de Fabrício Queiroz, operador do esquema. No total, o Coaf apontou uma movimentação atípica de R$ 6 milhões. “Acho que eu envelheci 100 anos”, admitiu. Ele orientava a filha a aguardar que Queiroz prestasse depoimento antes de falar qualquer coisa aos investigadores.
No entanto, antes disso, ela foi orientada pela equipe de advogados de Flávio a fugir dos investigadores e a aguardar instruções de Queiroz, um dos principais operadores do esquema de lavagem de dinheiro. O pai dela, Fausto, chegou a comemorar quando o caso foi paralisado em janeiro de 2019 e, em uma mensagem para a filha, admitiu o esquema.
O ICL estreia no dia 10 de agosto “O herdeiro do Jair”, a nova temporada do podcast investigativo “No Alvo”, coordenado e narrado pela jornalista Juliana Dal Piva. A primeira temporada foi “Império Malafaia”, com reportagem de Igor Mello, sobre a história e o patrimônio do pastor Silas Malafaia. Na segunda temporada, a jornalista Juliana Dal Piva traça um perfil do senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O trabalho tem roteiro de Juliana Dal Piva e Gabriela Varella, que também participa das narrações, edição de áudio de Cristiano Botafogo, do podcast Medo e Delírio em Brasília, e capa de Paula Villar. As trilhas originais foram compostas por Stela Nesrine e Amon Medrado. A direção de gravação é da Camila Mercatelli e “No Alvo” é gravado no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro.
Em três episódios, o podcast contará desde sua infância até sua entrada na política e a construção de seu patrimônio em meio a um desvio de dinheiro público no escândalo da “rachadinha” de pelo menos R$ 6 milhões. Entre as novidades estão entrevistas e gravações inéditas de pessoas que acompanharam e testemunharam a trajetória do senador. Algumas das gravações podem ser ouvidas no teaser, já disponível.
Luiza tinha apenas 20 anos quando começou a trabalhar no gabinete do então deputado estadual Flávio, em 2011. Ela chegou lá indicada por ser filha de um amigo de Fabrício Queiroz, operador do esquema. Ao depor ao Ministério Público do Rio, ela admitiu que nunca chegou a exercer de fato a função de assessora. No papel, consta que ela passou oito meses no gabinete de Flávio e depois foi realocada para outras áreas da Alerj, como a TV Alerj, mas continuou repassando parte do salário ao esquema por cinco anos, somando cerca de R$ 160 mil. O depoimento dela se tornou peça central para embasar a denúncia do MP-RJ contra Flávio, Queiroz e outras 14 pessoas por peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa e apropriação indébita.
No teaser, também é possível ver que o discurso de Flávio contra as urnas eletrônicas não é novo, vem desde 2014, quando ele ainda era deputado estadual na Alerj. Poucas semanas após a reeleição de Dilma Rousseff naquele ano, ele já dizia que “o que nos une é a desconfiança da urna eletrônica, um programa feito por uma empresa venezuelana, a Smartmatic” — associação falsa, como o TSE reitera desde então (a Smartmatic nunca forneceu urnas ou softwares ao sistema brasileiro, apenas serviços auxiliares de conexão de dados e treinamento).
Na terça (21), em evento com diplomatas de quase 50 países em Brasília, ele repetiu exatamente essa mesma associação, citando agora um relatório da CIA sobre a Venezuela — documento que trata exclusivamente do sistema venezuelano e não menciona o Brasil. O TSE já havia atualizado sua nota de desmentido em 8 de julho, antecipando esse tipo de uso indevido do relatório americano. A fala rendeu representações contra ele no TSE (PT e a Federação Brasil da Esperança), e o episódio é comparado por analistas à fala do próprio Jair Bolsonaro em julho de 2022 — que resultou depois na inelegibilidade dele.