• Redação
  • 13/10/2026

Paulo Figueiredo contratou empresa de lobby para influenciar relação dos EUA com Brasil

Por Alice Maciel / ICL

Uma fundação presidida pelo bolsonarista Paulo Figueiredo contratou nos Estados Unidos (EUA) empresa para fazer lobby junto ao governo de Donald Trump. Já foram pagos US$ 80 mil, cerca de R$ 400 mil, pelo serviço. A atuação busca influenciar iniciativas de cooperação entre os dois países em comércio, investimentos, financiamento e políticas de segurança pública, segundo os registros apresentados ao Congresso americano.

Desde o ano passado, Figueiredo articula ao lado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL/SP) uma ofensiva para enfraquecer o governo do presidente Lula (PT), impor tarifas ao Brasil e aplicar sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O núcleo investigativo do ICL Notícias revela com exclusividade documentos que comprovam, pela primeira vez, a contratação formal de uma empresa de lobby, que foi feita por meio de uma fundação sob o comando do aliado da família Bolsonaro.

As informações reunidas a partir de fontes públicas, expõe a estrutura de uma articulação que busca usar pressões externas para interferir na política brasileira, com implicações para a soberania nacional e a independência das instituições.

A America-Brazil Prosperity Advancement Foundation, Inc. foi constituída no estado de Delaware, paraíso fiscal nos EUA, em 31 de janeiro de 2025. Em 22 de outubro daquele ano, a entidade foi inscrita no SAM (System for Award Management), sistema usado por organizações que buscam contratos ou recursos do governo americano. Figueiredo aparece no cadastro como presidente da entidade. Um dos endereços que constam no registro também coincide com um imóvel do influenciador em Weston, na Flórida.

No cadastro do SAM, a fundação declara atividades de relações públicas, representação de mídia, apoio educacional, artistas, escritores e intérpretes independentes, concessão de subsídios e doações, organização cívica e social e defesa de causas sociais. As categorias seguem o Sistema de Classificação Industrial da América do Norte (NAICS), semelhante à Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), usada no Brasil.

Procurado, Paulo Figueiredo informou por meio de nota que a America-Brazil Prosperity Advancement Foundation “não possui vínculo de nenhuma natureza, formal ou informal, com qualquer membro da família Bolsonaro, e que nenhum político, brasileiro ou americano, integra, financia ou dirige a fundação”.

“É uma organização privada sem fins lucrativos de advocacy, constituída sob a seção 501(c)(4) do Internal Revenue Code dos Estados Unidos e operando estritamente sob a legislação americana. As atividades da fundação, assim como as de seus integrantes, são de natureza privada e não estão sujeitas a prestação de contas à imprensa”, acrescentou.

Javier Milei, Tucker Carlson e Damián Merlo, contratado como lobista por Fernando Cerimedo (Foto: Redes sociais)

Empresa de lobby tem conselheiro ligado a Bukele, Milei e a Fernando Cerimedo

Em maio deste ano, a America-Brazil Prosperity Advancement Foundation contratou a Checkmate Government Relations para fazer lobby junto ao governo de Donald Trump. O trabalho alcançou quatro órgãos centrais da administração americana: o Departamento de Estado, responsável pela política externa; o Departamento do Tesouro, que administra instrumentos de sanções econômicas e financeiras; o Departamento de Segurança Interna (DHS), responsável por áreas como imigração e proteção das fronteiras; e o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que conduz a política comercial e as negociações internacionais do país.

Segundo Paulo Figueiredo, a atuação da fundação junto ao USTR “teve como objetivo impedir a imposição de tarifas contra o Brasil”. “O esforço, infelizmente, não teve êxito, razão pela qual o contrato com a Checkmate Government Relations não foi renovado”, ressaltou. Ele não explicou os objetivos do lobby junto aos outros três órgãos do governo americano.

A Checkmate Government Relations tem como conselheiro para a América Latina o lobista Damian Merlo, que foi conselheiro de política externa do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e teve papel central na sua aproximação com o movimento MAGA e a Casa Branca. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, em 2023, Merlo afirmou que sua trajetória sempre esteve ligada ao Partido Republicano nos Estados Unidos e disse manter vínculos com a equipe de Donald Trump.

O lobista também atuou na campanha do presidente da Argentina, Javier Milei, ao lado do consultor político Fernando Cerimedo. Acusado de tentar matar a ex-companheira, Cerimedo ficou conhecido por trabalhar para expoentes da ultradireita na América Latina. Em 2022, ele espalhou fake news sobre as urnas eletrônicas no Brasil, colaborando para inflamar o clima pós-eleitoral, que resultou nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Ele foi indiciado pela Polícia Federal (PF) no inquérito da trama golpista.

Chamado de “o homem MAGA na América Latina” pela revista The Economist, Cerimedo é próximo de Eduardo Bolsonaro. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro entregou ao argentino, em fevereiro, o prêmio de Melhor Consultor Político Hispano do Ano, da Latino Wall Street, em uma festa em Mar-a-Lago, resort de Trump. Os dois também participaram, em julho, de uma transmissão ao vivo em que voltaram a atacar o sistema eleitoral brasileiro.

Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro em frente à Casa Branca, em Washington (Foto: Redes sociais)

Registro de lobby coincide com encontro de Flávio Bolsonaro e Donald Trump

A Checkmate Government Relations protocolou o registro inicial de lobby no sistema do Congresso dos Estados Unidos às 10h06 de 26 de maio de 2026, indicando 15 de maio como a data de início do contrato com a America-Brazil Prosperity Advancement Foundation.

No documento, a empresa descreve a fundação como uma organização sem fins lucrativos voltada à cooperação entre os dois países em investimentos, pesquisa e segurança pública.

O registro foi feito no mesmo dia do encontro de Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo com Donald Trump na Casa Branca. Após a reunião, o senador declarou que, se eleito presidente, levaria o Brasil ao Escudo das Américas, iniciativa regional liderada por Trump e afirmou ter pedido a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas.

A medida foi anunciada pelo Departamento de Estado dois dias depois, em 28 de maio, e entrou em vigor como designação de Organizações Terroristas Estrangeiras em 5 de junho.

Já no relatório do segundo trimestre da Checkmate, registrado em 17 de julho no Congresso americano, a empresa declarou US$ 80 mil em receita pelo trabalho de lobby em nome da America-Brazil Prosperity Advancement Foundation. Os documentos identificam Charles McDowell, Nelson Freeman e Muhammad Rahim como lobistas que representaram a fundação.

Beneficiários de financiamento americano para ações contra o STF permanecem sob sigilo

Quatro meses após a entidade de Paulo contratar a empresa de lobby, o governo americano destinou recursos a ações contra o que a gestão Trump classifica como excesso judicial e censura no Brasil. Segundo o jornal britânico The Guardian, o Departamento de Estado destinou US$ 1 milhão a um projeto voltado a grupos que contestam a atuação do STF.

Documentos obtidos pelo UOL detalham o programa “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”, com recursos liberados em 30 de setembro de 2026 – cinco dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil. A identidade dos beneficiários é= mantida sob sigilo até de integrantes do Congresso americano, segundo a publicação.

A fundação de Figueiredo consta no SAM, cadastro exigido, em regra, de organizações que disputam financiamento federal nos EUA. O registro é uma etapa administrativa e não comprova que a entidade tenha solicitado ou recebido essa verba. Até o momento, não foi identificado documento que a vincule ao programa.

Informações contidas nos documentos revelados pelo Uol, descrevem o fundo americano como uma ferramenta para “apoiar a sociedade civil para combater o ativismo judicial excessivo e a censura no Brasil”. Ainda segundo o portal, o documento cita nominalmente a atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUA contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.

A articulação de Eduardo Bolsonaro nos EUA levou à sua condenação a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo. Segundo o STF, ele buscou tarifas e sanções americanas para tentar impedir a condenação de Jair Bolsonaro na ação da trama golpista. Em 8 de outubro, Alexandre de Moraes determinou a expedição de um mandado de prisão e o cancelamento do passaporte brasileiro do ex-deputado, mas ele pode seguir viajando com seu passaporte Italiano.