• Redação
  • 08/06/2026

Para Além do Conflito Endógeno: O Brasil Precisa de uma Agenda de Longo Prazo, Não de Dogmas

Por Ricardo Valentim

Professor Titular d UFRN e cofundador do LAIS/UFRN

A atmosfera política brasileira parece presa em um *looping* temporal. Desde 2018, o debate público nacional foi sequestrado por uma engrenagem implacável: o maquinismo da polarização entre o lulismo e o bolsonarismo. Às vésperas das eleições presidenciais de 2026, o roteiro ensaia a sua terceira reprise, mas a verdade é que o país não precisa de mais um capítulo dessa guerra santa eleitoral. O Brasil precisa, urgentemente, de um debate qualificado. Reduzir uma nação da magnitude, complexidade e diversidade brasileira a uma disputa maniqueísta de "bem contra o mal" ou "pobres contra ricos" é um desserviço histórico. Essa lógica binária alimenta um modelo endógeno de polarização que se retroalimenta do conflito, mas não leva o Brasil para a frente. Trata-se de um sistema que serve muito bem como estratégia de marketing para engajar bolhas digitais e palanques, mas que falha miseravelmente em entregar o que o cidadão comum precisa no chão de fábrica, na sala de aula e na fila do hospital.

É inegável que lulismo e bolsonarismo possuem perfis, visões de mundo e métodos muito diferentes, e ignorar suas distinções seria um erro crasso de análise. Contudo, quando o assunto é o futuro estrutural da nação, ambos os polos convergem para a mesma incapacidade de oferecer respostas definitivas para os nós históricos da nossa produtividade, competitividade e coesão social. Enquanto passamos anos discutindo dogmas ideológicos, pautas de costumes e revanchismos políticos, as grandes reformas ficam em segundo plano ou são fatiadas pelo pragmatismo do fisiologismo partidário. O maquinismo político que se arrasta há quase uma década transformou o Estado brasileiro em um ringue de boxe, onde a prioridade máxima é nocautear o adversário, sabotando a possibilidade de uma visão de desenvolvimento econômico e social que o país tanto necessita.

Discutir o Brasil de forma qualificada significa resgatar a maturidade institucional e entender, de uma vez por todas, que a superação da pobreza não se faz apenas com transferência de renda, mas com ganho real de produtividade, atração de investimentos e choque de infraestrutura. Significa compreender que a segurança pública, a saúde e a preservação ambiental não são monopólios morais da direita ou da esquerda, mas imperativos de sobrevivência e soberania. O debate que o Brasil merece para o futuro exige a superação do imediatismo eleitoral para a construção de uma agenda de longo prazo, que seja simultaneamente paciente e consciente de nossos desafios estruturais. Precisamos discutir seriamente como vamos reformar nossa educação básica para inserir o jovem na economia digital, qual é a nossa estratégia de reindustrialização verde diante da crise climática global e como garantir a responsabilidade fiscal sem sufocar os investimentos sociais essenciais. Essas são perguntas complexas que não cabem em respostas prontas de militância.

O dogmatismo cega, transforma a política em religião e o adversário em um inimigo a ser exterminado. O resultado dessa fórmula o país já conhece bem: estagnação econômica, fadiga institucional e uma sociedade fraturada. O Brasil é muito maior do que as frentes fáceis que tentam oligopolizar o poder através do conflito perpétuo. Chegou a hora de exigir que os postulantes ao cargo mais alto da República parem de olhar pelo retrovisor do ressentimento e comecem a desenhar o mapa do futuro. Não precisamos de salvadores da pátria, nem de mitigadores de danos. Precisamos de lideranças capazes de sentar à mesa para formular uma verdadeira agenda de país, pois passou da hora de o Brasil romper esse ciclo e exigir o que de fato merece.