O Templo do Cinismo
Por Ricardo Valentim
Professor Titular da UFRN
Cofundador do LAIS/UFRN
Conhecer os bastidores do poder é a versão moderna do suplício de Prometeu: a centelha da lucidez serve apenas para assistir, com precisão implacável, à própria carne sendo servida no banquete dos parasitas. Votar tornou-se o rito litúrgico de escolher qual carrasco exala o odor menos nauseabundo. O cidadão anestesiado marcha em direção ao cadafalso agitando bandeiras partidárias como amuletos de redenção, enquanto aos desinformados resta o consolo da ilusão perpétua. Para quem adquiriu o fardo do discernimento, a urna deixa de ser um instrumento cívico e passa a operar como um lavador de culpas coletivo, higienizando antecipadamente a violência institucional dos próximos quatro anos.
A engrenagem opera em simetria perfeita: o discurso é uma partitura de virtudes forjada por marqueteiros de frieza calculada, enquanto a prática resume-se ao pragmatismo utilitarista que converte a vulnerabilidade pública em moeda eleitoral e minutos de palanque. O alvo é sempre a massa conduzida como rebanho, nutrida pela ração diária da polarização fabricada para garantir a autoperpetuação de uma casta que extrai privilégios das próprias crises que jura combater.
Nesse teatro, o militante fanático reivindica valores que não pratica para blindar figuras que o negociariam pelo menor valor de emenda orçamentária. O operador político atua no epicentro da simulação, encenando comoção diante das mesmas mazelas que seus acordos de bastidor alimentam.
Compreender esse mecanismo extingue a ingenuidade da revolta comum, deixando apenas a constatação árida de um ciclo que troca de atores sem alterar a dramaturgia. A consciência não emancipa: apenas expõe a solidez da cela com nitidez impiedosa, revelando que o contrato social foi firmado com cláusulas de reajuste perpétuo em favor da própria estrutura.
Resta a pergunta que nenhum palanque ousa responder: quando a mediocridade se torna o padrão de sobrevivência da vida pública, a baixa qualidade da nossa política é uma falha acidental do sistema ou o seu projeto mais bem-sucedido?