O Teatro dos Santos Descalços e a Miséria do Debate
Por Ricardo Valentim
Professor titular da UFRN e cofundador do LAIS
O espetáculo já não precisa de terceira badalada; ele está em cartaz 24 horas por dia, alimentado pela eletricidade do ódio e pelas engrenagens invisíveis dos algoritmos. No centro do palco brasileiro, a peça é sempre a mesma, encenada com o mesmo figurino gasto: o manto da pureza contra a lama da corrupção. Direita, esquerda, extremos e centros ensaiam o mesmo monólogo. A corrupção no Brasil virou a pauta única de quem não tem pauta nenhuma. Ela não tem dono, mas tem uma coordenação impecável: a da conveniência eleitoral.
Como bem diagnosticou Walfrido Warde em O Espetáculo da Corrupção, o processo de espetacularização do combate aos desvios éticos no país criou uma indústria política destrutiva. A corrupção deixou de ser um crime a ser investigado nos autos, com o rigor silencioso da lei, para se tornar o combustível principal da máquina de triturar reputações e erguer falsos heróis. O país, enquanto isso, assiste à encenação na plateia, empobrecido e anestesiado.
A hipocrisia desse teatro ganhou contornos de comédia trágica recentemente. Quando um Ministro do Supremo Tribunal Federal vai a público blindar sua biografia dizendo que seu "único pecado foi esquecer o aniversário da esposa", ele não está apenas fazendo uma piada de salão; ele está operando a lógica desse espetáculo. É a performance da santidade. Em um ambiente saturado pelo moralismo de fachada, o homem público precisa se pintar como um ser angelical, incapaz de falhas terrenas, para que a turba o aceite como juiz ou líder. É a negação da política e a consagração do cinismo.
O paradoxo terrível, que Warde ilumina com precisão, é que essa obsessão teatral pela corrupção não nasce de um desejo genuíno de eliminá-la. O sistema precisa da corrupção. Precisa dela como espantalho, como o "mal" absoluto que justifica a existência de salvadores da pátria igualmente vazios. Enquanto as telas brilham com denúncias, vazamentos seletivos e operações pirotécnicas, esconde-se o verdadeiro abismo: a indigência intelectual da classe política.
A maioria dos nossos representantes transformou-se em uma elite de estelionatários eleitorais. São seres incapazes de formular um projeto de desenvolvimento de longo prazo, de discutir a produtividade do trabalho, a inserção do Brasil nas cadeias globais de valor ou a miséria estrutural que condena gerações. Pensam apenas na próxima postagem, no próximo corte de trinta segundos que engajará a militância, na próxima eleição. O Estado brasileiro, o desenvolvimento do país, a construção de uma nação — tudo isso foi trocado pelo varejo da sobrevivência parlamentar e do fundo partidário.
Para fechar o circuito da desilusão, as próprias instituições parecem ter aprendido a coreografia do palco. A sensação de aparelhamento e o viés de atuação corroem o tecido da confiança pública. Como confiar em instituições que parecem hibernar em anos ímpares e despertar com fúria justiceira e prazos milimétricos em anos de urna? A justiça e a fiscalização, quando moldadas pelo calendário eleitoral, deixam de ser salvaguardas da democracia para se tornarem jogadoras do campeonato.
O diagnóstico é duro, mas urgente. O maior problema do Brasil hoje não é a corrupção em si — que é um sintoma —, mas a falência múltipla dos órgãos pensantes da política, substituídos por um moralismo de conveniência que destrói o debate público. O espetáculo continua arrastando multidões e gerando cliques. Mas, quando as luzes do teatro se apagarem e o ano eleitoral passar, o que restará será o mesmo país de sempre: com as instituições desgastadas, os palanques desmontados e o futuro, mais uma vez, adiado.