• Redação
  • 06/11/2026

O silêncio que adoece: o enfrentamento ao assédio como desafio da próxima Reitoria

Por Tiago Medeiros

A universidade pública se orgulha de ser o berço do pensamento crítico, da vanguarda ética e da defesa intransigente da dignidade humana. No entanto, dentro de seus próprios muros, convive com uma chaga cotidiana que corrói relações de trabalho e destrói trajetórias acadêmicas: o assédio moral e sexual. Com um aumento superior a quinhentos por cento nas denúncias registradas na UFRN nos últimos cinco anos, o problema deixou de ser uma demanda administrativa periférica para se tornar uma questão central de saúde institucional e governança.

O assédio no ambiente universitário não se resume a estatísticas frias. Ele se traduz em licenças médicas, quadros de ansiedade, depressão e no adoecimento silencioso de docentes, técnicos-administrativos e estudantes submetidos a estruturas desiguais de poder. É preciso reconhecer que, mesmo diante desse cenário desafiador, a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas buscou implementar medidas institucionais para enfrentar o problema. Ainda assim, o crescimento expressivo das notificações evidencia que existem raízes estruturais profundas, que exigem respostas da alta administração, e não apenas esforços setoriais.

O cenário ganha contornos ainda mais emblemáticos quando se observa a composição das três chapas que disputam a Reitoria. A predominância masculina entre os postulantes à gestão máxima da instituição, com cinco homens e apenas uma mulher integrando uma chapa na condição de vice, também merece reflexão. Em um ambiente marcado por assimetrias de representatividade e relações de poder, o enfrentamento ao assédio não pode ser empurrado para debaixo do tapete nem tratado como pauta secundária.

Diante do processo sucessório, as cartas de intenção e os discursos protocolares sobre gestão humanizada já não são suficientes. Não bastam propostas genéricas nos programas de campanha. A comunidade acadêmica precisa conhecer, de maneira objetiva, quais medidas cada chapa pretende adotar para prevenir, acolher, investigar e enfrentar situações de assédio moral e sexual. Também é legítimo esperar compromissos públicos com a transparência dos procedimentos institucionais, o respeito ao contraditório e a proteção das pessoas envolvidas.

Essa cobrança não representa linchamento, tampouco autorização para julgamentos antecipados. Uma denúncia não equivale a uma condenação. Mas a existência de registros, os procedimentos adotados e os respectivos desfechos precisam ser tratados com responsabilidade e transparência. A integridade institucional exige tanto o acolhimento de quem denuncia quanto a garantia de apuração justa e imparcial.

Quem pretende liderar a maior instituição de ensino do Rio Grande do Norte precisa compreender que governar uma universidade vai muito além de administrar orçamento, pessoal e estrutura acadêmica. Significa também assumir responsabilidade pelas relações humanas que sustentam a instituição. A próxima Reitoria terá diante de si uma escolha que não pode ser adiada: continuar tratando o adoecimento como um problema periférico ou assumir o enfrentamento ao assédio como compromisso central de gestão.

A universidade que ensina pensamento crítico precisa também ter coragem de olhar para suas próprias contradições.

Thiago Medeiros é Sociólogo