O que o tratamento das elites do RN a Cadu e Fátima revela sobre o preconceito de classe na política
Nas minhas conversas com integrantes dos estratos mais privilegiados do Rio Grande do Norte, chama atenção a diferença de tratamento dispensada a Cadu Xavier e Fátima Bezerra. Não se trata de criticar nenhum dos dois, mas de observar sociologicamente como as elites potiguares se relacionam com cada um. Cadu é frequentemente elogiado por sua formação técnica, pela condição de auditor e pela facilidade com que transita nos ambientes empresariais e institucionais, como a Fiern e a Fecomércio. Sua origem social e sua trajetória profissional já lhe conferem, de partida, uma espécie de legitimidade nesses espaços. Com Fátima, a relação é bastante diferente.
Fátima é aquilo que a sociologia chama de trânsfuga de classe, alguém que rompe as barreiras de sua origem social e alcança posições historicamente reservadas a outros grupos. Nas conversas que acompanho, são recorrentes referências jocosas marcadas por machismo, homofobia e preconceito contra seu sotaque e sua maneira de falar. Há uma dimensão profundamente classista nesse comportamento. O questionamento de diplomas, da linguagem e das formas de apresentação de quem veio de baixo integra um repertório de desqualificação que tenta transformar diferenças de origem social em supostas incapacidades para exercer o poder. É a resistência de setores das elites à presença de pessoas de origem popular em posições de comando.
É justamente por isso que a trajetória de Fátima Bezerra é tão impressionante. Vencer sucessivas disputas eleitorais e chegar ao governo do Rio Grande do Norte, enfrentando barreiras de classe, gênero e origem social, representa um feito político extraordinário. Sua ascensão ocorreu num ambiente em que determinados grupos ainda tratam o poder como uma extensão natural de sua posição social. Cadu, por sua vez, chega ao governo com atributos que facilitam sua aceitação nesses mesmos círculos. Será sociologicamente revelador acompanhar como as elites potiguares tratarão os dois. A comparação pode demonstrar que, para determinados setores da sociedade, não basta chegar democraticamente ao poder. É preciso também possuir a origem, os códigos culturais e as credenciais sociais que eles reconhecem como legítimos.