• Redação
  • 14/06/2026

O Gramado Global e as Barreiras do Isolamento: O que a Copa Ensina a Trump

Por Ricardo Valentim

Professor Titular da UFRN e Cofundador do LAIS

Há uma ironia monumental correndo pelos gramados norte-americanos. Enquanto os refletores dos estádios iluminam a maior celebração de interculturalidade e integração do planeta, a poucos quilômetros dali, a caneta de Donald Trump tenta desenhar um país insular, murado e focado no "America First". O paradoxo é completo: o solo que hoje acolhe o mundo é o mesmo que, politicamente, tenta lhe dar as costas.

A Copa do Mundo de 2026 não é apenas um torneio de futebol; é um manifesto vivo contra o isolacionismo. Pela primeira vez na história, quarenta e oito nações se reúnem em uma engrenagem que exige, por definição, abertura de fronteiras, diplomacia logística e, acima de tudo, a celebração da diferença. Torcedores de todos os continentes misturam suas cores nas ruas de Nova York, Los Angeles e Miami, provando que a verdadeira força de uma nação não está na sua capacidade de se isolar, mas na sua competência para conectar.

Enquanto o mundo joga o jogo da cooperação, a cartilha de Trump insiste em um anacronismo perigoso. Entre tarifas comerciais agressivas, o esvaziamento do multilateralismo e a retórica de desconfiança com aliados históricos, o governo atual confunde soberania com solidão. O erro estratégico é evidente: ao tentar fechar as portas para o exterior para proteger o "heartland" (o coração do país), a liderança americana cria um vácuo geopolítico. Espaços de influência não ficam vazios; quando os EUA recuam de fóruns internacionais e acordos globais, outras potências — como a China — avançam sem hesitar.

O acerto do mundo, materializado na festa do futebol, é reconhecer que os desafios do século XXI são essencialmente transnacionais. Da economia ao clima, nenhuma linha imaginária no mapa é capaz de conter a realidade. O futebol entende isso perfeitamente: para o espetáculo acontecer, o outro é necessário. O adversário não é um inimigo a ser destruído por sanções, mas o parceiro indispensável para a existência do próprio jogo.

A Copa nos EUA deixa uma lição clara que a Casa Branca parece ignorar: o isolamento não gera segurança, gera irrelevância. Se Washington quiser manter sua grandeza, precisará aprender com o multilateralismo que acontece dentro de seus próprios estádios. Afinal, a história costuma aplaudir quem constrói pontes e organiza a festa, e raramente se lembra com carinho daqueles que preferiram assistir ao mundo passar do lado de fora do muro.