O Golpe de Paletó e Gravata: uma orquestra dos “puros protegidos por Deus” para atacar a nação
Por Ricardo Valentim
Professor Titular da UFRN e Cofundador do LAIS
O Brasil, em sua infinita capacidade de reinventar o absurdo, parece ter descoberto uma nova modalidade de esgarçamento democrático, uma espécie de golpe gourmet. Se em janeiro de 2023 a ignorância precisou de pedras, barras de ferro e do famigerado batom para pichar o "Perdeu, mané" na estátua do STF, a estética do vandalismo atual evoluiu.
A violência bruta e a depredação física saíram de moda, sendo substituídas por uma engenharia muito mais limpa, sutil e perversa, focada na demolição moral e reputacional das instituições republicanas. Não se quebram mais vidraças. Estilhaça-se, agora, a própria noção de legitimidade do Supremo Tribunal Federal, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, marcando a transição tática do terrorismo de calçada para o linchamento de paletó e gravata. Essa metamorfose do caos não é um acidente, mas um refúgio metodológico.
Afinal, governar ou apresentar propostas reais para um país complexo dá trabalho e exige um intelecto que a política do ressentimento simplesmente não possui. Diante de uma anemia crônica de projetos estruturais para a economia, a saúde ou a educação, resta aos aspirantes a autocratas a velha e eficaz receita do manual fascista, que se baseia na fabricação industrial de inimigos imaginários.
O debate de ideias foi solenemente sepultado. Em seu lugar, ergueu-se um espetáculo de histeria coletiva onde a população, embriagada por um fluxo incessante de narrativas conspiratórias, é induzida a enxergar os órgãos de controle não como guardiões da Constituição, mas como vilões de uma novela mal escrita. Para quem não tem futuro a oferecer, sabotar o presente é a única garantia de sobrevivência eleitoral.
Nesse picadeiro de vaidades e radicalismos, o Judiciário foi arrastado — e por vezes se deixou atrair — para o centro do palco, assumindo um protagonismo eleitoral bizarro. O processo político nacional passou a orbitar a figura de juízes e agentes da lei, rotulados ao gosto do freguês como heróis nacionais ou "alienados ideológicos" guiados por dogmas que supostamente pertencem à direita.
É nesse ponto que o cenário brasileiro ganha seus contornos mais dramáticos ao mergulhar fundo no vale da hipocrisia outrora desmascarado por Nelson Rodrigues. Ao diagnosticar que por trás de todo paladino da moral vive um canalha de virtudes postiças, o cronista parecia antever essa fusão burlesca entre o oportunismo político e o fanatismo religioso.
O discurso da salvação nacional e da pureza dos costumes serve apenas como biombo para esconder a indigência de propostas, convertendo o púlpito e o tribunal em palanques de uma cruzada moralista tão barulhenta quanto vazia. Quando a arbitragem jurídica é transformada em um lado da disputa e os tribunais passam a ditar o ritmo das urnas sob o manto dessa falsa moralidade, a própria democracia perde sua âncora de neutralidade.
A eleição deixa de ser uma escolha sobre quem tem o melhor plano para o Brasil e vira uma guerra de narrativas sobre quem controla a caneta dos tribunais e quem se fantasia de mártir da perseguição estatal.
É exatamente aqui que o novo método se revela mais devastador que o anterior. O batom na estátua e os vidros estraçalhados em Brasília foram limpos e trocados em poucos dias, mostrando que a arquitetura de Oscar Niemeyer resistiu ao vandalismo físico. Contudo, a pichação digital invisível que hoje cobre a PF, o MPF e o STF é um solvente químico que corrói a confiança pública de forma permanente.
Ao desidratar a autoridade moral dessas entidades, o extremismo cumpre, com precisão cirúrgica, o mesmíssimo papel de um tanque de guerra na rua, que serve para paralisar os freios e contrapesos e pavimentar o caminho para o arbítrio. Sem instituições que a sociedade respeite, a democracia vira uma casca vazia, um teatro de sombras pronto para ser desmoronado pelo próximo populista de plantão.
Defender essas estruturas hoje não é considerá-las infalíveis ou imunes à crítica feroz, mas entender o óbvio, pois no dia em que a reputação da justiça for totalmente demolida, o que sobrará para nos proteger não será a liberdade, mas o império do mais forte.