• Redação
  • 10/08/2026

O Brasil no Tabuleiro Global: Ativo Indispensável, Não Refém Ideológico

Por Ricardo Valentim

Professor Titular da UFRN, Pesquisador Sênior e Cofundador do LAIS

O debate sobre o papel internacional do Brasil costuma cair na armadilha de leituras simplistas e ideologizadas. De um lado, defende-se um alinhamento automático a valores e potências ocidentais; do outro, uma adesão cega a blocos contrapostos. No entanto, como sugere o diplomata Braz Baracuhy em Geopolítica Global: O Mapa Estratégico do Mundo Contemporâneo, o novo século não exige partidarismo ingênuo, mas um pragmatismo estratégico capaz de traduzir a complexidade do cenário internacional em ganhos reais de soberania e desenvolvimento.

À medida que o sistema internacional se reorganiza sob uma nova dinâmica de rivalidade, precipitando um cenário cada vez mais bipolar ou de multipolaridade assimétrica, o país precisa superar o vício de buscar um lugar de mero "alinhado". A transição hegemônica atual difere profundamente da Guerra Fria do século XX: o embate de hoje não se resume a doutrinas opostas, mas envolve o controle de cadeias globais de suprimento, a corrida pela transição energética, a segurança alimentar e a governança tecnológica. Nesse contexto, a relevância de uma nação não é medida pela sua fidelidade cega a um bloco, mas pela sua capacidade de se tornar necessária a todos eles.

A verdadeira força geopolítica brasileira reside justamente na capacidade de transitar com autonomia entre os eixos de poder, ancorando-se em trunfos que poucos países possuem. O Brasil é, simultaneamente, uma potência agrícola indispensável para a estabilidade do abastecimento de comida no mundo, o centro de gravidade da agenda ambiental global com uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta e um ator diplomático com histórica vocação para a mediação e o diálogo. Quando o país aceita vestir uma camisa ideológica, apequena essa diplomacia, reduz sua margem de manobra e aceita o papel de coadjuvante em disputas que não inventou.

Assumir-se como um ativo geopolítico indispensável exige um equilíbrio dinâmico contínuo. Trata-se de preservar parcerias estratégicas com os Estados Unidos e a Europa no campo dos valores institucionais e dos investimentos, ao mesmo tempo em que se aprofundam e diversificam as trocas comerciais e a cooperação com a China e o espaço dos BRICS. 

Não se trata de uma neutralidade passiva ou omissa, mas de uma presença assertiva, pautada exclusivamente pelo interesse nacional, pela atração de tecnologia, pela agregação de valor à economia local e pelo desenvolvimento sustentável.

O mapa estratégico do século XXI continua a ser reescrito em ritmo acelerado. Diante de disputas que prometem redefinir a governança do planeta, o Brasil tem diante de si a oportunidade histórica de não ser arrastado pelas marés da rivalidade alheia. Ao se posicionar não como um seguidor de ocasião, mas como uma potência alimentar, ambiental e diplomática autônoma, o país deixa de ser um espectador passivo para se consolidar como um nó vital e insubstituível da geopolítica contemporânea.