Mensagens de Motta com Vorcaro citam ‘sociedade’ em negócio e discussão sobre projeto de lei na Câmara
(Folhapress) – Conversas extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, do Banco Master, mostram diálogos em que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), sugere ao ex-banqueiro um “formato em sociedade”, na operação de compra de um terreno na Paraíba que estava no nome da cunhada do parlamentar.
O conteúdo foi divulgado nesta segunda-feira (28), pelo site Fatos Online, e confirmado pela Folha. As conversas, que começam em 9 de março de 2024, também revelam proximidade entre os dois, que se tratam de “amigo” e “irmão”.
Conforme a Folha de S.Paulo mostrou em março, a cunhada de Motta fez nesse período um empréstimo com o banco de pelo menos R$ 22 milhões. O valor, que teria sido pedido diretamente pelo parlamentar, foi utilizado para comprar o terreno de uma antiga fábrica de cimento em João Pessoa (PB) que seria loteado e transformado em um novo bairro.
“Boa noite amigo! Td bem? Desculpa incomodar no sábado, estou aqui reunido com o pessoal para finalizar a negociação de compra da área aqui de JP. Conforme falamos, já temos os documentos assinados passando a empresa para minha cunhada ela iniciou a negociação com a Adriana mas acredito que ela não tá sabendo do formato de sociedade que ficou combinado”, diz Motta, na mensagem.
O presidente da Câmara finaliza: “Quando puder me orienta como devemos proceder pq o prazo é curto para saldar com Intercement [empresa que atua na produção de cimento]”.
Quatro dias depois, Hugo Motta também afirma a Vorcaro, após este dizer que estava numa reunião com “nosso amigo”: “Certo, meu sogro está até aqui, queria levar ele pq acabamos agora de desenrolar as assinaturas que faltavam para poder prosseguir o pagamento. Se vc achar conveniente, analisa e me avisa”.
No dia 15 de março, Motta chama o dono do Master de amigo e diz que estava “passando para agradecer a confiança e a parceria”. “Deu tudo certo a tempo de cumprir o contrato. Depois vamos marcar uma conversa para traçar os próximos passos, acredito que vamos ter êxito no projeto! Forte abraço!”, afirma.
Vorcaro devolve também chamando-o de amigo e diz: “Muito feliz de estarmos juntos! Te admiro muito e esse é o início de uma parceria de vida”.
Motta retribui: “Com certeza meu amigo, a admiração é recíproca!”.
O crédito serviu para comprar, em abril de 2024, um terreno de mais de 400 hectares de uma fábrica de cimento desativada em João Pessoa, conforme Bianca afirmou na época da reportagem, por mensagem de texto. O espaço é quase o triplo do parque Ibirapuera, em São Paulo, e abrigará um novo bairro da capital paraibana.
A quantia paga pelo terreno foi de R$ 45 milhões, mas o valor fiscal dele é de R$ 101 milhões, de acordo com as matrículas do imóvel. O valor fiscal é calculado pela prefeitura e é utilizado para pagamento de impostos. Em outros casos verificados pela reportagem, essa cifra costuma ser menor do que o valor de mercado.
Os diálogos também apontam que, em novembro do mesmo ano, Vorcaro teria pedido auxílio ao presidente da Câmara sobre um projeto de lei de carbono, já que este lhe encaminhou mensagens que recebeu com informações sobre o texto aprovado no Senado.
Sobre este tema, no dia 19 daquele mês, o dono do Master pergunta “consegue encontrar mais tarde hoje” e Motta responde: “Sim. Pegando o texto aqui para te mandar”.
As conversas ainda mostram uma menção, no dia 23 de março, sobre o FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Motta diz a Vorcaro: “Quando puder lembra de pedir a seu pessoal o estudo daquele assunto do FGC, se vc for a Brasília essa semana podemos voltar a falar para ver onde podemos tentar encaixar esse assunto”.
Além disso, sugerem que Vorcaro colocou uma aeronave à disposição de Motta, em 27 de abril de 2024, quando este lhe perguntou de onde sairia o avião que o levaria de Guarulhos para Brasília. “Já vai estar te esperando”, respondeu o banqueiro.
Motta afirmou, por meio de nota enviada por sua assessoria, que, enquanto parlamentar em seu quarto mandato na Câmara dos Deputados, sempre manteve diálogo com os diversos segmentos do empresariado e representantes da sociedade brasileira.
“Enfatizo que não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados e repudio a tentativa de atribuir conversas descontextualizadas a qualquer relação de interesse espúrio ou de favorecimento por minha parte. Tenho uma vida limpa, assim como é limpa a minha atuação política nesses 15 anos de vida pública”, disse.
Ele também afirmou que, como “já como explicitou anteriormente”, “o contrato de empréstimo realizado por empresa privada com um banco privado se deu quando não se tinha conhecimento dos fatos e investigações que posteriormente vieram a público sobre o Master e o seu dono”.
“Reitero que confio nos órgãos responsáveis pelas investigações, a quem cabe responder pelas apurações”, disse.