José Dirceu diz que vitória de Lula não foi do PT, cobra renovação do partido e defende diálogo com eleitores de Flávio Bolsonaro
O ex-ministro José Dirceu afirmou que a reeleição de Lula em 2026 não pode ser interpretada como uma vitória exclusiva do Partido dos Trabalhadores. Em entrevista ao jornal O Globo, publicada nesta terça-feira (3), o dirigente petista avaliou que o resultado foi construído por uma ampla mobilização democrática, envolvendo setores políticos e sociais que ultrapassam a base tradicional da legenda. Para Dirceu, o PT precisa reconhecer esse cenário e passar por uma profunda reorganização, ampliando o diálogo com partidos como PSOL, Rede, PDT e PSB.
Dirceu também defendeu uma mudança na relação da esquerda com segmentos da sociedade que demonstram resistência ao PT, especialmente jovens e evangélicos. Segundo ele, é necessário superar a percepção de que o partido é contrário aos evangélicos e abandonar a postura de tratar os eleitores da direita como adversários com os quais não se pode conversar. O ex-ministro ressaltou que parte dos brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro precisa ser incorporada ao debate político, sem estigmatização. Na sua avaliação, o novo governo Lula deverá representar também setores que não apoiaram o presidente no primeiro turno, mas contribuíram para sua vitória na etapa decisiva.
Sobre a sucessão de Lula, Dirceu afirmou que o próximo grande nome da esquerda não surgirá simplesmente de uma escolha pessoal do presidente. Para ele, as novas lideranças precisarão conquistar legitimidade por meio da atuação política, administrativa e partidária. Citou Fernando Haddad como exemplo de alguém que ganhou projeção nacional a partir de sua experiência nos ministérios da Educação e da Fazenda. O dirigente também destacou o fortalecimento do PT no Nordeste e defendeu maior participação de mulheres e jovens nas estruturas internas da legenda, além de investimentos em formação política e comunicação nas redes sociais.
Dirceu ainda defendeu que Lula aproveite o quarto mandato para construir um pacto nacional em torno de reformas tributárias, financeiras, políticas e do Judiciário. Apesar de reconhecer a necessidade de enfrentar problemas fiscais, criticou a possibilidade de ajustes que comprometam direitos sociais, aposentadorias e políticas públicas. Derrotado na disputa por uma vaga de deputado federal em São Paulo, o ex-ministro também anunciou que não pretende voltar a concorrer a cargos eletivos. Sua avaliação é de que o futuro da esquerda dependerá menos da busca imediata por um substituto de Lula e mais da capacidade de reconstruir sua organização, ampliar alianças e formar novas lideranças.