Itamaraty convoca representante da Embaixada da Argentina após Flávio cruzar fronteira do Brasil com o país vizinho e fugir para EUA
G1 - O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) convocou a encarregada de Negócios da Embaixada da Argentina no Brasil, María Emilia Cortés, a prestar esclarecimentos sobre o contexto da fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos nesta semana.
O governo da Argentina confirmou que o senador embarcou com a família em um avião particular que partiu da Argentina na noite de terça-feira (27).
María Emilia Cortés foi recebida na tarde desta quinta-feira (29) pelo chefe do Departamento do Mercosul do Itamaraty, João Marcelo Galvão de Queiroz, em Brasília.
Na conversa, o embaixador pediu a ela informações sobre a fuga do senador e, segundo diplomatas que participaram da reunião, María Emilia ficou de transmitir o que foi debatido ao governo de Javier Milei.
De acordo com diplomatas, o procedimento é praxe em casos desse tipo e não estão previstos desdobramentos no momento. No entanto, novos passos serão definidos à luz dos desdobramentos das apurações.
Internamente, o governo brasileiro decidiu fechar a posição de que o Brasil quer virar a página sobre a fuga do senador e não dar mais importância ao assunto.
Integrantes do governo já decidiram não entrar em discussões públicas com o governo argentino sobre o episódio.
Segundo o blog do colunista do g1 Valdo Cruz, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi aconselhado por interlocutores a não falar mais em Flávio Bolsonaro (PL), focar em seu quarto mandato e deixar claro que o problema do senador é com o Judiciário.
Fuga em jatinho particular
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou nos Estados Unidos na quarta-feira (28) após fugir do Brasil com a esposa e as duas filhas.
A família viajou em um avião particular que partiu da Argentina e fez uma escala no Equador.
A rota começou ainda na noite de terça-feira (27), quando Flávio e a família entraram na Argentina após cruzarem a Ponte Internacional Tancredo Neves. A via liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones.
- Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, a família cruzou a fronteira às 22h50, pelo horário de Brasília.
- O órgão afirmou que os quatro apresentaram documentação válida para a viagem e não tinham nenhum impedimento legal para entrar no país.
Cerca de 40 minutos depois, às 23h30, Flávio e a família embarcaram em um jatinho particular do modelo Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW. A aeronave pertence à Baires Fly, empresa argentina que realiza voos privados./i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/Q/V/VdZRDESyOwNlL4ToSMuA/design-sem-nome-2026-10-28t114802.810.jpg)
Flávio Bolsonaro desembarca nos EUA — Foto: Eva Marie Uzcategui/Reuters
O avião decolou de Puerto Iguazú às 0h22 de quarta. A aeronave sobrevoou o Paraguai, a Bolívia e o Peru, evitando o espaço aéreo brasileiro. Às 5h46, pelo horário de Brasília, o jatinho pousou no aeroporto de Guayaquil, no Equador.
Flávio ficou menos de uma hora em solo equatoriano. O avião decolou novamente às 6h22, com destino aos Estados Unidos.
A viagem terminou às 10h24, horário de Brasília, quando o avião com o senador e a família pousou no Aeroporto Executivo de Fort Lauderdale, na Flórida. O terminal fica na região de Miami.
Saída do Brasil
Flávio deixou o Brasil após o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar que ele entregasse os passaportes à Polícia Federal.
- A decisão foi dada em um processo no qual Flávio e o advogado Willer Tomaz são investigados por lavagem de dinheiro, em um suposto esquema que envolveria empresas de Tomaz e bets.
- Os dois confirmam que são amigos, mas negam ser sócios e ter cometido qualquer irregularidade.
Na terça-feira (27), um representante do Departamento de Estado dos EUA informou que o governo americano concederia vistos a Flávio Bolsonaro e à família e permitiria a entrada deles no país.
Uma consulta ao sistema da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, na sigla em inglês) mostra que o senador recebeu autorização para permanecer por um ano no país.
Os registros mostram que Flávio foi admitido em uma categoria identificada pelo código "DT".
A sigla é usada para autorizações temporárias no país, geralmente ligadas a questões humanitárias.
- O g1 procurou a agência para esclarecer o status migratório do senador, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
A consulta mostrou ainda que Flávio utilizou um passaporte diplomático que havia sido cancelado para entrar nos Estados Unidos.
PF já havia apontado risco de fuga
A Polícia Federal (PF) apontou riscos "concretos e atuais" de fuga ao pedir ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, a apreensão do passaporte e a proibição de saída do país de Flávio Bolsonaro.
Na avaliação da PF, três elementos centrais indicavam que Flávio poderia deixar o Brasil sob a justificativa de suposta perseguição política:
- a manifestação pública e direta do deputado cassado Eduardo Bolsonaro, recomendando ao irmão que deixasse o país;
- o expressivo poder econômico;
- a existência de estruturas já estabelecidas no exterior que poderiam viabilizar uma permanência prolongada.
O pedido da PF citou uma declaração de Eduardo Bolsonaro em que ele defendeu que o irmão deixasse o país caso fosse derrotado na disputa pelo Palácio do Planalto.
"Em entrevista concedida recentemente nos Estados Unidos, EDUARDO BOLSONARO, irmão do Senador FLÁVIO BOLSONARO, defendeu publicamente que este deixe o país caso não obtenha êxito no pleito eleitoral. Cabe recordar que EDUARDO BOLSONARO foi recentemente condenado pelo crime de coação no curso do processo", disseram os investigadores.