• Redação
  • 29/10/2026

Isolado nos EUA, Flávio vê aliados reconhecerem Lula e se afastarem da carta golpista

Amado Mundo - O senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, terminou esta quarta-feira, 28/10, isolado em sua tentativa golpista. Horas depois de desembarcar em Miami e divulgar a “carta à Nação brasileira”, em que se apresentava como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” – depois reescrita para pintá-lo como “líder do Brasil” –, o candidato derrotado pelo presidente Lula, do PT, viu o principal governador da direita; o coordenador da própria campanha; o próprio partido; e até o presidente americano, Donald Trump, a quem agradecera no texto, se recusarem a endossar a autoproclamação.

Lula foi reeleito no domingo, 25/10, com 51,79% dos votos válidos e uma diferença de cerca de 4,43 milhões sobre o rival. A carta de Miami foi distribuída inicialmente por aliados, entre eles o influenciador Paulo Figueiredo, com o antigo brasão “Estados Unidos do Brazil” (assim mesmo, com “z”) no cabeçalho. Cerca de uma hora depois, após a repercussão, Flávio publicou nova versão, em que trocou “presidente eleito” por “líder do Brasil”, mas manteve a acusação de fraude, sem apresentar qualquer resquício de prova.

O senador deixou o país pela fronteira com a Argentina depois que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou a entrega de seus passaportes e o proibiu de sair do Brasil, no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro com o amigão advogado Willer Tomaz. A Polícia Federal informou que a ordem não foi cumprida e cancelou os documentos.

Na carta, Flávio ainda acusa Alexandre de Moraes de corrupção por suposta ligação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, mas omite os próprios laços com o banqueiro, como mostrou a coluna do Guilherme Amado.

Trump diz que não vai se envolver

Questionado por jornalistas nesta quarta sobre a carta em que Flávio se dizia presidente legítimo, Trump evitou dar aval ao texto e disse que não se envolveria.

O republicano confirmou ter autorizado a entrada do senador e da família nos EUA, repetiu que considerou a eleição brasileira “estranha” e afirmou que os Bolsonaro foram tratados de forma injusta. Mas ressaltou que não tomou posição na disputa.

Na prática, o acolhimento é logístico, não político. Trump abriu a porta, mas não reconheceu Flávio como presidente.

Tarcísio diz que eleição acabou

No Brasil, o primeiro a reagir foi o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, que fez campanha por Flávio no segundo turno. Em declaração ao “Estadão”, ele disse compreender a indignação do aliado, mas ressaltou que a eleição acabou e que agora seria preciso olhar para a frente. Defendeu que o caminho é respeitar o resultado das urnas e fazer oposição dentro da institucionalidade.

A fala reforça o movimento iniciado na véspera. Na terça-feira, 27/10, em vídeo, Tarcísio já havia reconhecido a vitória de Lula, agradecido a Flávio pela campanha e pregado uma “oposição vigilante” no Congresso e nos estados, ainda que com críticas à condução do processo eleitoral e sem citar o presidente pelo nome.

Outro cabo eleitoral de Flávio em São Paulo foi na mesma linha. O prefeito Ricardo Nunes, do MDB, que apoiou o senador durante toda a campanha, afirmou ao “Estadão” que o presidente do Brasil é aquele que o TSE declarou eleito. Para Nunes, cabe agora a Lula governar corrigindo os rumos, sobretudo na economia, e à oposição fiscalizar e cobrar o cumprimento das promessas.

Marinho diz que PL não tem provas de fraude

Coordenador da campanha presidencial, o senador Rogério Marinho, do PL do Rio Grande do Norte, foi o único aliado citado nominalmente na carta, lançado por Flávio como seu candidato à presidência do Senado. No mesmo dia, Marinho, líder da oposição na Casa, afirmou que o PL não tem provas da fraude alegada pelo próprio candidato.

Na terça-feira, 27/10, véspera da divulgação da carta, Marinho já havia dito publicamente que não sabia da viagem de Flávio aos Estados Unidos. Disse ter ficado surpreso, porque na véspera os dois haviam conversado sobre Flávio assumir a liderança da oposição. Criticou a ordem de entrega dos passaportes, que chamou de “abuso e humilhação”, mas evitou endossar a saída: “Então até compreendo caso Flávio tenha saído do Brasil. Não digo que concordo, porque não fui consultado”.

Nos bastidores, o afastamento já estava desenhado. Como a coluna do Guilherme Amado antecipou, desde a proclamação do resultado pelo TSE, Marinho, a advogada da campanha Maria Claudia Bucchianeri, a senadora Tereza Cristina, do PP de Mato Grosso do Sul, e Tarcísio não encamparam o discurso de fraude e aconselharam Flávio a reconhecer que perdeu.

O jurídico da campanha também avisou o senador de que contestar as urnas não era uma saída viável. Em 2022, uma contestação custou ao partido uma condenação a pagamento de multa de R$ 22 milhões. A alternativa seria uma ação no TSE contra a chapa de Lula por abuso de poder político e econômico, tese com a qual Flávio, a princípio, indicou concordar.

Nem os bolsonaristas mais barulhentos vinham sustentando a fraude com a ênfase da carta. Com a senha dada pelo senador, o discurso pode ganhar força na ala mais ideológica do bolsonarismo, e Flávio, aspirante a líder da oposição, pode acabar liderando à distância só uma fração do próprio campo.

O PL também reconheceu o resultado proclamado pelo TSE em nota assinada pelo presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, ainda que cobrando esclarecimentos sobre o uso da máquina pública na campanha. O vice na chapa derrotada, deputado Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas, também atestou o resultado.

Sobre a carta, o partido não se manifestou.

Kassio, indicado por Bolsonaro, atesta a eleição

O resultado que Flávio chama de fraude foi proclamado pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo em 2020 por Jair Bolsonaro, pai do senador. Na noite de domingo, 25/10, Kassio telefonou para os dois candidatos para comunicar o resultado. Ele disse ainda que a prorrogação da votação até as 19h, determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF, não alterou a totalização.

Segundo nota do TSE, 34.393 votos foram computados depois das 17h em todo o país, número muito inferior à vantagem de Lula. A prorrogação havia sido pedida pelas duas campanhas, inclusive a de Flávio, após relatos de falta de transporte para eleitores.

Observadores internacionais também atestaram o pleito: o Carter Center e a OEA defenderam a lisura da eleição e a capacidade técnica do TSE e pediram respeito ao resultado.

Nesta quarta-feira, depois da divulgação da carta, Kassio voltou ao tema em nota. Sem citar Flávio, afirmou que as Eleições 2026 “transcorreram dentro da mais absoluta normalidade” e com respeito à lei e à Constituição, e reafirmou o compromisso da Justiça Eleitoral com a vontade do eleitorado, que “legitimamente escolheu seus representantes”.

O ministro reconheceu instabilidade na reta final da votação, mas disse que as medidas do tribunal permitiram entregar um pleito seguro. Informou ainda que questionamentos feitos dentro do devido processo legal serão analisados e respondidos, sinalizando que qualquer contestação terá de seguir o rito judicial.

Quem ainda fica ao lado

O apoio que resta vem sobretudo do núcleo familiar e de aliados que defendem a saída do país, não a autoproclamação. O irmão Eduardo Bolsonaro pediu em vídeo que apoiadores não reconheçam a eleição e defendeu pressão internacional.

Já o governador eleito do Paraná, Sergio Moro, do PL, classificou a saída de Flávio como “compreensível” diante da apreensão dos passaportes, mas não endossou a tese de fraude.

A maior parte das manifestações de bolsonaristas mira a decisão de Moraes, e não as urnas. O senador eleito Deltan Dallagnol, do Novo do Paraná, chamou a fuga de “exílio político” e comparou Flávio ao opositor venezuelano Edmundo González. O influenciador Pablo Marçal repetiu a fórmula em post: “Não é fuga! É exílio”. Já o deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, perguntou que segurança teria um cidadão comum se um candidato com 60 milhões de votos precisa sair do país.

Na mesma linha, o senador eleito José Medeiros, do PL de Mato Grosso, disse que o importante é Flávio e a família estarem em segurança. Marcel van Hattem, do Novo do Rio Grande do Sul, acusou o governo Lula de perseguição e questionou por que a Polícia Federal pediu a apreensão dos passaportes minutos depois de o TSE declarar Lula vencedor.

O deputado federal eleito Lucas Pavanato, do PL de São Paulo, foi dos poucos a falar em anular a eleição, mas sob alegação de abuso de poder econômico e compra de votos, não de fraude nas urnas. O governador eleito do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco, do PL, estranhou a decisão sobre os passaportes, mas disse não ter falado com Flávio nem ter informações sobre a saída.

Dos EUA, Flávio diz que vai comandar a oposição ao quarto mandato de Lula e se comparou a opositores como o venezuelano Juan Guaidó. A diferença é que Guaidó atuava de dentro do país e contestava uma eleição questionada por observadores internacionais. Flávio está fora do Brasil, descumpriu uma ordem judicial e contesta um resultado reconhecido por seu próprio partido.