Gestão de Ronaldo Caiado movimentou R$ 1,3 bi em operações con fintech suspeita de elo com o PCC
Folha - A gestão do governador Ronaldo Caiado (PSD-GO)movimentou cerca de R$ 1,3 bilhão por meio da fintech BK Bank, investigada na Operação Carbono Oculto sob suspeita de ligação com o PCC e lavagem de dinheiro. Segundo a Folha de São Paulo, documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que os repasses ocorreram entre outubro de 2021 e agosto de 2025, período correspondente aos dois mandatos de Caiado à frente do governo de Goiás.
De acordo com o Executivo estadual, os recursos eram destinados à operacionalização de programas sociais de transferência de renda que atendem cerca de 880 mil beneficiários.
Comerciantes arcavam com taxas de até 6%
A BK Bank recebia os valores por meio de contas ligadas à GoiásFomento, agência estatal da qual o governo goiano é acionista majoritário. Posteriormente, os recursos eram transferidos para cartões utilizados pelos beneficiários dos programas sociais.
Durante a operação da fintech, comerciantes credenciados pagavam taxas de utilização de até 6% sobre as compras realizadas pelos beneficiários. Metade do valor arrecadado ficava com a GoiásFomento e os outros 50% eram destinados à BK Bank.
Em 2024, o governo estadual substituiu a instituição financeira responsável pela operação dos pagamentos. A nova divisão das taxas passou a destinar 75,6% dos valores à GoiásFomento e 24,4% à nova fintech contratada.
Repasses seguiram até operação da PF
Apesar da troca de instituição financeira, os repasses à BK Bank continuaram até agosto de 2025, mês em que foi deflagrada a Operação Carbono Oculto.
Segundo o governo estadual, a continuidade das transferências ocorreu devido à existência de saldos remanescentes. Em nota, a gestão afirmou que “A GoiásFomento não realizou novas transações financeiras com a BK Bank após agosto de 2025 e que “quando da deflagração da Operação Carbono Oculto, a agência adotou medidas administrativas e judiciais para resguardar o interesse público, considerando que o contrato possuía cobertura securitária. Até o momento, não há prejuízo constatado à GoiásFomento."
Coaf aponta movimentações suspeitas
O relatório do Coaf reúne comunicações feitas por instituições bancárias sobre operações consideradas atípicas. O órgão federal é responsável pela prevenção e identificação de práticas de lavagem de dinheiro.
Segundo as investigações, a BK Bank teria atuado como uma espécie de “banco paralelo” do PCC, utilizando o sistema conhecido como “contas-bolsões”, em que diversos clientes realizam depósitos em uma única conta, dificultando o rastreamento dos recursos.
As autoridades afirmam que empresas ligadas ao crime organizado, especialmente usinas de álcool e distribuidoras de combustíveis, utilizaram a fintech para movimentações bilionárias com ocultação da origem e do destino do dinheiro.
O documento do Coaf também registra movimentações envolvendo órgãos públicos e prefeituras, embora em valores inferiores aos transferidos pela Agência de Fomento de Goiás.
Investigação envolve R$ 17,7 bilhões
Ao todo, conforme a reportagem, 22 comunicados bancários sobre transações suspeitas envolvendo a BK Bank mencionam operações ligadas à GoiásFomento. Parte dos registros mostra repasses do governo estadual para a fintech. Outra parte trata do caminho inverso, da BK para a agência estadual.
Essas movimentações somaram R$ 28,5 milhões entre julho de 2022 e setembro de 2025. Sobre os valores, o governo afirmou que os “valores repassados pela BK referem-se à devolução de recursos não utilizados pelos beneficiários e à remuneração contratual prevista na operacionalização do arranjo de pagamento.”
Com sede em Barueri, na Grande São Paulo, a BK Bank possui capital social pouco superior a R$ 9 milhões.
Segundo relatório da Receita Federal citado nas investigações, a fintech registrou “alto volume de transações atípicas” envolvendo empresas ligadas a grupos criminosos. As entradas de recursos chegaram a R$ 17,7 bilhões. Na Operação Carbono Oculto, a Justiça determinou o bloqueio dos valores mantidos pelos investigados na BK, além da preservação de extratos, contratos e cadastros de clientes.
Caiado questiona atuação do Coaf
Após a publicação da reportagem, Caiado afirmou que a BK Bank possuía autorização do Banco Central para operar e questionou a atuação do Coaf.
“Não estaria existindo, neste momento, conivência ou omissão do Coaf na prevenção de crimes dessas organizações criminosas, deixando-as operar e informando delitos somente depois da operação policial que trouxe à tona o envolvimento da empresa com o narcotráfico? De quem parte a ordem para calar o Coaf?”, declarou o ex-governador.
A BK Bank não respondeu aos contatos feitos pela reportagem. Após a Operação Carbono Oculto, Correios, Serpro e o Governo do Paraná interromperam contratos com a fintech.