Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro, atuou para intermediar contatos entre Vorcaro e Moraes, aponta PF
G1 - O relatório da Polícia Federal que expõe ligações entre o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), aponta que o ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro, Fábio Faria, atuou na intermediação de contatos entre os dois.
As mensagens analisadas pelos investigadores registram Faria compartilhando contatos de Moraes, organizando encontros presenciais e acompanhando tratativas relacionadas ao contrato entre o Banco Master e o escritório da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes.
Segundo a PF, a atuação aparece de forma recorrente entre o fim de 2023 e 2024, período em que a relação entre Vorcaro e Moraes se estreitou./i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/6/C/fksIsQS2eJritxv5F0vQ/cerimonia-5g-brasil-o-legado-de-um-pais-conectado-vac-abr-0712222702.jpg)
Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro, intermediou contatos entre Vorcaro e Moraes, aponta PF — Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Em 21 de dezembro de 2023, conforme o relatório, Faria participou da logística de uma reunião entre Vorcaro e Moraes. Depois do encontro, o ex-ministro enviou um áudio ao banqueiro dizendo que Moraes “gostou da conversa” e já queria organizar um próximo passo.
Cinco dias depois, em 26 de dezembro de 2023, Faria enviou a Vorcaro os dados de contato telefônico do ministro e voltou a atuar na preparação de outro encontro. “Alex quer ir almoçar lá no dia 30”, diz uma mensagem no dia seguinte.
A referência, segundo a investigação, era a uma visita de Moraes ao Six Senses Botanique, hotel de luxo na região de Campos do Jordão. A partir da informação, Vorcaro mobilizou integrantes de sua equipe para preparar a recepção com "experiência completa".
Segundo os indícios analisados pela PF, o planejamento envolvia almoço, chef particular, passeios a cavalo e funcionários mobilizados para prestar assistência ao grupo para "convidados ultra vips".
As mensagens também registram Faria organizando outros encontros sociais envolvendo Vorcaro e Moraes, incluindo jantares com as respectivas mulheres e reuniões em residências. Em abril de 2024, o ex-ministro encaminhou mensagens relacionadas a encontros na própria casa de Moraes.
Negociação de contrato
As conversas mostram também o ex-ministro acompanhando, em janeiro e março de 2024, as tratativas em torno do contrato de R$ 130 milhões firmado pelo Banco Master com o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, da esposa do ministro.
O contrato previa o pagamento de R$ 3 milhões por mês e foi interrompido após a liquidação do Master pelo Banco Central, em novembro, quando Vorcaro foi preso pela primeira vez.
Em 11 de janeiro de 2024, Viviane encaminhou a Vorcaro uma minuta de contrato de prestação de serviços jurídicos.
Quatro dias depois, em 15 de janeiro, após Vorcaro devolver o documento com revisões feitas por um de seus advogados, Faria perguntou sobre o prazo que havia sido negociado para o contrato. “Fechou 3 anos?”, questionou.
Faria respondeu que haviam sido quatro anos, mas acrescentou que poderia refazer para três anos. A versão final estabeleceu 36 pagamentos mensais de R$ 3 milhões líquidos ao escritório de Viviane. O contrato acabou assinado em 23 de janeiro de 2024.
A PF identificou ainda que os metadados de duas versões da minuta registravam como responsável pela última modificação um usuário denominado “Ministro Alexandre de Moraes”.
Faria voltou a aparecer nas conversas sobre o contrato em 15 de março de 2024. Em uma das mensagens sobre os pagamentos, ele alertou Vorcaro: “O careca não pode atrasar.”
O banqueiro, então, cobrou providências de sua equipe financeira e classificou a despesa como “o contrato mais importante que temos”, segundo a investigação.
'Ego dele'
A intermediação de Fábio Faria também aparece na organização do I Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, patrocinado pelo Banco Master e realizado na capital britânica entre 24 e 27 de abril de 2024.
Em 18 de abril, Faria e Vorcaro conversaram sobre um participante que, segundo os dois, havia sido vetado por Moraes. “Mas eu acho que Alexandre gosta que ele saiba que ele vetou. Ego dele”, disse o ex-ministro. Vorcaro respondeu: “No final ele vetou mesmo, ficou claro.”
Faria também aparece nas tratativas para convidar Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, para o fórum de Londres.
Segundo os registros da investigação, o ex-ministro conversou com outros interlocutores sobre a participação de Andrei e posteriormente repassou informações a Vorcaro sobre como o convite deveria ser formalizado pelo banco.
Os investigadores identificaram ainda situações em que Vorcaro recorreu a Faria para tentar obter informações de Moraes sobre reportagens que poderiam ser publicadas pela imprensa.