Entre Brisa e Nina: o problema não é torcer contra o São João, mas explicar cachês acima dos R$ 700 mil recomendados por TCE-RN e MPRN e as dívidas ainda pendentes na cultura
A troca de críticas entre a vereadora Nina Souza e a vereadora Brisa Bracchi revela uma disputa política que vem se intensificando em Natal. De um lado, a gestão municipal busca defender os investimentos realizados no São João da capital. Do outro, a oposição questiona prioridades, valores contratados e a condução administrativa dos recursos públicos. Trata-se de um debate legítimo em qualquer democracia: governos defendem suas ações e opositores fiscalizam. O problema surge quando questionamentos institucionais passam a ser tratados como se fossem ataques contra a própria cidade ou contra um evento popular.
Ao afirmar que o PT estaria "torcendo contra" o São João de Natal, Nina Souza ignora que parte das críticas feitas ao volume de gastos encontra respaldo em preocupações levantadas por órgãos de controle. Tanto o Ministério Público quanto o Tribunal de Contas do Estado recomendaram cautela nas contratações artísticas e estabeleceram como referência o teto de R$ 700 mil para cachês. Diante disso, a resposta mais adequada da administração municipal não seria transformar a divergência em disputa ideológica, mas apresentar justificativas técnicas e administrativas para eventuais contratações acima dos parâmetros recomendados.
A postura da também primeira-dama de Natal revela certa dificuldade em compreender o papel institucional exercido pelos órgãos de fiscalização e pelos atores políticos que fazem oposição. Em um ambiente republicano, recomendações do Ministério Público e do Tribunal de Contas não devem ser encaradas como obstáculos ou manifestações de má vontade, mas como mecanismos de controle previstos justamente para garantir transparência e responsabilidade na aplicação dos recursos públicos. A maturidade institucional exige diálogo, prestação de contas e capacidade de responder às críticas com argumentos, e não com acusações de suposta torcida contra a cidade.
Esse debate se torna ainda mais sensível quando persistem cobranças relacionadas a pagamentos atrasados de artistas e fornecedores. Nomes conhecidos nacionalmente, como Taty Girl e Beto Barbosa, já foram associados a reclamações sobre valores pendentes, assim como pequenos fornecedores e artistas locais que alegam aguardar pagamentos referentes a eventos anteriores. Nesse contexto, é natural que surjam questionamentos sobre prioridades financeiras da gestão. Antes de atribuir motivações políticas aos críticos, talvez fosse mais produtivo esclarecer as pendências existentes e demonstrar, com transparência, como a Prefeitura pretende conciliar grandes investimentos em eventos com a regularização de compromissos assumidos anteriormente.