• Redação
  • 19/09/2026

Efeito China: preços dos 25 carros usados mais buscados no Brasil em 2026 caem até 15%

G1  - Como mostrou o g1 neste mês, o mercado de seminovos no Brasil tem sofrido com a enxurrada de carros chineses e as promoções dos carros zero km. Agora, os dados mostram que os preços efetivamente praticados no mercado de usados caem de forma mais acentuada do que indica a tabela Fipe, elaborada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.

Um levantamento da Auto Avaliar, feito com exclusividade para o g1, mostra que todos os 25 carros usados mais buscados do Brasil caíram de preço nos últimos 12 meses, em uma média de 10,2%. A Fipe mostra uma média de apenas 4%.

Desvalorização no preço de venda ao consumidor em agosto 2026:

  1. Jeep Compass: -15,7%
  2. Jeep Renegade: -13,8%
  3. Chevrolet Tracker: -13,5%
  4. Ford Ranger: -11,8%
  5. Toyota Corolla Cross: -11,8%
  6. VW Nivus: -11,2%
  7. Fiat Pulse: -10,5%
  8. Toyota Hilux: -10,3%
  9. Chevrolet Onix: -10,1%
  10. Honda Civic: -10,1%
  11. Hyundai Creta: -10%
  12. Honda HR-V: -9,9%
  13. Nissan Kicks: -9,7%
  14. Fiat Strada: -9,6%
  15. VW T-Cross: -9,5%
  16. Toyota Corolla: -9,3%
  17. VW Polo: -9,3%
  18. Fiat Toro: -9,3%
  19. Honda City: -9,2%
  20. VW Virtus: -8,6%
  21. Hyundai HB20S: -8,5%
  22. Toyota Yaris: -7,9%
  23. Fiat Argo: -7,2%
  24. Hyundai HB20: -7%
  25. Renault Kwid: -6,8%
🔎 A Auto Avaliar é uma plataforma em que mais de 27 mil lojistas compram e vendem automóveis. Existem mais de 6 mil concessionárias cadastradas, o que corresponde a 85% do segmento.

O levantamento de preços feito para o g1 cobre sete anos-modelo, de 2019 a 2025. A distribuição: 26% são carros de 0 a 2 anos, 29% de 3 a 4 anos e 45% de 5 a 7 anos. São 30 mil combinações de modelo/versão/ano/estado só nos 25 carros.

Distorção da tabela

O estudo da Auto Avaliar mostra que existe um atraso entre o que o mercado está praticando nas vendas e o que a tabela Fipe informa. Todos os 25 modelos têm esta distorção entre tabela e preço praticado na transação.

Segundo J.R. Caporal, presidente da Auto Avaliar, esse fenômeno acontece porque a Fipe compila dados de anúncios e com certa defasagem de tempo. “O nosso banco de dados mostra o quanto o lojista pagou pelo carro e por quanto ele fechou a venda”, explica o executivo.

Dessa maneira, explica Caporal, é possível ver de maneira imediata como o mercado se comporta na reacomodação dos preços. A tabela Fipe faz um levantamento somente de preços anunciados.

No gráfico abaixo é possível perceber como a tabela Fipe registra queda nos preços, mas o valor de queda percentual mapeado pela Auto Avaliar é maior.

Desvalorização de carros mais buscados — Foto: Arte/g1

Segundo José Éverton Fernandes, presidente da Federação Nacional dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), é preciso entender que a tabela Fipe demora a mostrar ajustes.

“Na Fipe, a gente olha para um retrovisor. São dados de quatro semanas atrás e que provocam essa sensação de preços praticados fora da realidade”, explica.

De acordo com Fernandes, os lojistas e o mercado estavam acostumados com uma demanda grande de clientes e pouca oferta de carros. Hoje, segundo o presidente da Fenauto, há uma reacomodação do mercado.

Esse choque de realidade aparece quando se compara o preço anunciado pelo lojista e quanto realmente o cliente pagou para levar o carro para casa.

Veja abaixo alguns exemplos.

Diferença entre preço de anúncio e valor pago na venda. — Foto: g1

Outro fenômeno que os dados mostram é como os 25 carros “queridinhos” do mercado de usados já não conseguem ser vendidos acima da tabela Fipe. Esse valor que ultrapassa o praticado no mercado é chamado de ágio.

O ágio era até então um dos principais argumentos de compra desses modelos no mercado de zero km e também da valorização deles no mercado de usados.

Com o recuo das tabelas praticadas nos automóveis novos, os preços dos seminovos passaram por um processo de ajuste proporcional.

O presidente da Fenauto afirma que essa movimentação não representa um cenário de crise no setor automotivo, mas sim uma busca natural por equilíbrio entre a quantidade de veículos ofertados e a capacidade de compra do mercado.

Fim do ágio na compra de seminovos — Foto: g1

Analisando os números, é possível perceber que, em agosto de 2025, 1 em cada 3 seminovos “queridinhos” era vendido acima da Fipe. Já em agosto de 2026, o valor caiu para irrisórios 0,8%.

A situação é ainda mais clara nos seminovos com menos de 2 anos. Nesse caso, mais de 67% dos carros em agosto de 2025 eram vendidos com ágio. Isso caiu em 2026 para só 2%.

Esse é um movimento claro do comportamento dos clientes, que estão abrindo mão de carros seminovos com baixa quilometragem e procurando as promoções dos chineses e dos zero km.

Com o preço certo

O levantamento exclusivo do g1 mostra que os 25 queridinhos passam pouco tempo no estoque da loja. Essa métrica é importante, pois mostra o quanto um veículo é desejado e, por isso, sai logo do pátio da loja para a garagem do cliente.

A média do mercado é de 18 dias e todos os 25 veículos estão abaixo da média.

Veja o ranking de quantidade de dias que o carro passa no estoque (modelos de 2020 a 2026).

  • VW Polo: 3 dias
  • VW Virtus: 5 dias
  • VW T-Cross: 5 dias
  • Hyundai HB20: 6 dias
  • Fiat Argo: 6 dias
  • Chevrolet Tracker: 6 dias
  • Chevrolet Onix: 6 dias
  • Hyundai HB20S: 7 dias
  • Fiat Strada: 7 dias
  • Hyundai Creta: 8 dias
  • Nissan Kicks: 9 dias
  • Jeep Renegade: 9 dias
  • VW Nivus: 10 dias
  • Renault Kwid: 10 dias
  • Jeep Compass: 11 dias
  • Honda HR-V: 11 dias
  • Honda Civic: 11 dias
  • Fiat Pulse: 12 dias
  • Toyota Hilux: 13 dias
  • Fiat Toro: 13 dias
  • Toyota Yaris: 15 dias
  • Toyota Corolla: 15 dias
  • Ford Ranger: 15 dias
  • Honda City: 16 dias
  • Toyota Corolla Cross: 18 dias

* O cálculo usa uma mediana de dados da Auto Avaliar em setembro de 2026.

Toyota Corolla Cross demora hoje, em média, 18 dias para sair do pátio da loja de seminovos. — Foto: Rafael Leal/g1

Caporal ressalta que os veículos estocados há mais tempo foram comprados em um contexto de preços mais elevados. Diante disso, para girar o estoque e concretizar as vendas, os lojistas precisam realizar ajustes para baixo e absorver margens menores.

“O lojista precisa entender que é o momento de vender ganhando menos e voltar ao mercado para comprar estoque no preço certo e buscar de novo a margem”, explica Caporal.

Efeito China

Queda é influenciada pela chegada de marcas chinesas e pelos descontos dados pelas fabricantes tradicionais. Crédito mais restrito também dificulta as negociações.

Para a consultora Tereza Fernandez, a queda dos preços dos seminovos está se consolidando em 2026. A chegada de marcas chinesas e a redução de preços promovida pelas fabricantes tradicionais aumentaram a pressão sobre os veículos usados.

Segundo Tereza, lojas que mantêm estoques elevados podem ter prejuízos com a desvalorização. O impacto, porém, depende da capacidade de cada vendedor de reduzir rapidamente os preços e limitar as perdas.

A consultora não vê uma crise no segmento de lojas de carros usados. Para ela, o efeito da queda dependerá da velocidade da desvalorização, do tamanho da redução dos preços e da quantidade de veículos mantidos em estoque.

“Lojas que têm estoques muito grandes podem enfrentar problemas mais sérios com a desvalorização.”

A queda dos preços também afeta o consumidor que pretende trocar de carro. Quem vende um seminovo encontra valores menores na hora da venda, mas também pode comprar outro veículo usado por um preço mais baixo.

Por isso, Tereza avalia que não deve haver uma mudança significativa nesse tipo de negociação. O principal impacto estaria na compra de um carro zero km, que passa a depender dos descontos oferecidos pelas montadoras.

A consultora ressalta que não é possível generalizar o comportamento do mercado. Outro fator que dificulta as negociações é a inadimplência, que levou os bancos a adotar critérios mais rígidos e dificultou o acesso ao crédito.

Para Cássio Pagliarini, da Bright Consulting, a maior confiança do consumidor também ajuda a explicar a queda dos preços dos seminovos. Com mais confiança, parte dos clientes que antes comprava veículos usados passa a considerar a aquisição de um carro novo.

Nesse cenário, os modelos chineses ganham espaço, segundo o consultor.

“A maioria desses carros chineses já entrega eletrificação, tecnologia e um tempo de garantia que dá segurança ao cliente”, diz o consultor.

Para Pagliarini, a mudança já afeta o cenário para os lojistas. Os problemas podem ser maiores para quem mantém grandes quantidades de seminovos, veículos que antes eram comprados em volume justamente por apresentarem boa liquidez.

O mercado também mudou em relação aos veículos eletrificados, de acordo com o consultor. Ele afirma que ficou para trás o período em que esses modelos tinham menor poder de revenda e permaneciam por mais tempo nos estoques.

Pagliarini estima que o mercado de veículos em 2026 possa chegar perto de 3 milhões de unidades. Na avaliação dele, o resultado poderia ser maior se houvesse condições melhores de financiamento.

O principal obstáculo, porém, está na aprovação do crédito. Segundo o consultor, embora exista demanda, a dificuldade de conseguir financiamento limita os negócios neste momento.

Nenhum dos especialistas entrevistados pelo g1 conseguiu prever até quando essa reacomodação dos preços deve acontecer.