• Redação
  • 11/09/2026

Eduardo orientou gestão de recursos de Dark Horse, diz PF

A Polícia Federal (PF) afirma que uma mensagem atribuída a Eduardo Bolsonaro (PL-SP) continha orientações sobre a forma como recursos destinados a Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), poderiam ser administrados nos Estados Unidos.

A captura de tela da conversa foi encaminhada em 21 de março de 2025 pelo publicitário Thiago Miranda a Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. Segundo a PF, Eduardo mencionava a possibilidade de enviar a maior quantidade possível de dinheiro pelo modelo que já estava sendo utilizado e citava a disponibilidade de Altieres Santana, ligado à estrutura financeira que recebeu recursos destinados à produção.

Na mensagem reproduzida na investigação, Eduardo afirma que “o ideal seria haver os recursos já nos EUA” e diz que uma transferência realizada dentro do próprio país seria mais simples. Ele também demonstra preocupação com a capacidade da empresa brasileira responsável pelas remessas de enviar de uma só vez o volume necessário ao filme.

“Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos”, diz a mensagem atribuída ao ex-deputado.

Na sequência, Eduardo apresenta uma alternativa para acelerar o envio do dinheiro. “Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”

Ele também informa que Altieres Santana poderia participar diretamente das tratativas. “O Altieres Santana está à disposição, inclusive voa para fazer reunião pessoal com quem quer que seja”, afirma.

Remessas somaram US$ 12,3 milhões

A investigação identificou US$ 12,33 milhões em transferências realizadas em 2025 pela Entre Investimentos e Participações ao Havengate Development Fund LP, fundo registrado nos Estados Unidos. As remessas ocorreram em fevereiro, março, abril, maio e setembro.

Os valores se aproximam das parcelas previstas em um acordo de financiamento encontrado no celular de Vorcaro. Em 18 de dezembro de 2024, Thiago Miranda encaminhou ao então dono do Banco Master um arquivo referente à produção, ainda chamada de Capitão do Povo, nome anterior de Dark Horse.

O acordo previa investimento total de US$ 24 milhões -cerca de R$ 134 milhões na cotação considerada pela PF- dividido em 14 parcelas. As duas primeiras seriam de US$ 2 milhões e as demais, de aproximadamente US$ 1,67 milhão.

Para a PF, a proximidade entre os valores previstos no acordo e aqueles posteriormente enviados ao Havengate, somada às mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro, constitui indício de que a Entre e o fundo americano teriam sido utilizados para operacionalizar aportes destinados ao filme.

As conversas analisadas pelos investigadores mostram que a Entre já aparecia nas tratativas antes das transferências. Em 5 de fevereiro de 2025, diante de dificuldades para realizar um pagamento relacionado ao filme, Vorcaro orientou que a operação fosse feita “via entre”, expressão que a PF considera uma provável referência à Entre Investimentos.

Em 13 de fevereiro, a Entre transferiu US$ 2 milhões ao Havengate. No dia seguinte, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, encaminhou ao então banqueiro o comprovante da remessa e informou que o pagamento havia sido destinado ao filme.

A PF afirma ainda que o Havengate era administrado por uma empresa ligada a Altieres Santana e ao advogado Paulo Sergio Camin Calixto, apontado na representação como advogado de Eduardo Bolsonaro.

Fundo havia sido criado para projeto imobiliário

A representação da PF cita reportagem do Intercept Brasil segundo a qual o Havengate havia sido criado em 2020 para captar recursos para um empreendimento imobiliário de US$ 21,1 milhões na cidade de Melissa, no Texas. O projeto ofereceria a investidores brasileiros a possibilidade de obter residência permanente nos Estados Unidos por meio do programa EB-5.

Segundo as informações reproduzidas pela PF a partir da reportagem, o empreendimento não saiu do papel e não foram encontrados registros de propriedade, alvará de construção ou obras nos cadastros oficiais consultados. A gestora do fundo cancelou seus registros no Texas e na Flórida em maio e setembro de 2021, respectivamente.

A representação afirma que o Havengate permaneceu juridicamente ativo, mas “operacionalmente inerte por quase quatro anos, sem qualquer atividade pública registrada”, até receber, em fevereiro de 2025, a primeira transferência de US$ 2 milhões relacionada ao financiamento do filme. Para a PF, o uso de uma estrutura originalmente criada para um projeto imobiliário como destino de remessas ligadas a uma produção cinematográfica reforça a necessidade de esclarecer a finalidade e o caminho dos recursos.

Ao reunir os elementos, a PF cita o acordo de US$ 24 milhões, as remessas internacionais, as mensagens sobre a forma de pagamento, o comprovante enviado ao Havengate e as tratativas envolvendo Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto e Altieres Santana sobre a estrutura financeira utilizada. Segundo a corporação, o conjunto justifica aprofundar a investigação para esclarecer a origem, o caminho, a destinação e os beneficiários finais do dinheiro.

A PF avalia de forma preliminar a possível ocorrência de crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, mas ressalta que os enquadramentos ainda precisam ser confirmados ou delimitados com o avanço das diligências.