• Redação
  • 03/06/2026

Edgar Morin e o LAIS: A Invenção de uma Ciência Viva e Sem Fronteiras

Por Ricardo Valentim

Professor Titular da UFRN e Cofundador do LAIS

Há pensamentos que iluminam o mundo e há teorias que ganham vida quando encontram pessoas dispostas a transformá-las em realidade. Para nós, no Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN), a obra do sociólogo francês Edgar Morin não é apenas um conjunto de conceitos para ser estudados nas estantes da universidade; ela é a nossa própria razão de ser. É o oxigênio que respiramos todos os dias.

Morin, que com sua mente brilhante cruzou a barreira do centenário nos ensinando a pensar, sempre alertou sobre uma grave "cegueira moderna": a fragmentação do ensino e do conhecimento. Ele explicava que as disciplinas fechadas criam técnicos brilhantes em suas caixas isoladas, mas completamente cegos para o que realmente importa na vida. O especialista que enxerga o micróbio, mas esquece o paciente; o engenheiro que projeta o algoritmo, mas desconhece o viés humano que ele carrega; o economista que calcula o lucro, mas ignora o impacto na ponta da cadeia produtiva — todos eles sofrem dessa miopia sistêmica.

A escola e a universidade tradicional muitas vezes nos treinam para responder a perguntas fechadas, mas a vida real, a saúde e o planeta cobram respostas para problemas que são abertos, dinâmicos e multidimensionais.

É exatamente nesse ponto que a teoria de Morin se transforma na prática do LAIS.

Nascemos com o propósito de romper essas barreiras disciplinares. Para quem olha de fora, o termo "A Disciplinar" pode soar estranho no Brasil, como se nos faltasse disciplina. Mas quem vivencia o LAIS sabe que é o oposto: a disciplina no sentido de seguir um planejamento rigoroso, sistemático e resiliente está no nosso DNA. O que nós não aceitamos é pensar em soluções de saúde de forma isolada. Não conseguimos olhar para um problema sem buscar compreender o todo, sem envolver cada parte envolvida.

Por isso, o LAIS é transdisciplinar por essência e de forma inteiramente orgânica. Nossas equipes transitam livremente, derrubando muros, entre as engenharias, as ciências humanas, as ciências sociais, as ciências exatas e as ciências da saúde. No mesmo corredor e no mesmo projeto, cientistas da computação conversam com médicos, comunicadores debatem com sanitaristas, e engenheiros trabalham lado a lado com assistentes sociais.

Essa mistura, que Morin previu como o grande calidoscópio do futuro, é o que dá potência ao nosso laboratório. Quando desenvolvemos inteligência computacional para prever surtos de dengue, quando criamos modelos matemáticos e plataformas inteligentes de monitoramento para enfrentar a sífilis no Brasil ou quando erguemos em tempo recorde um ecossistema digital para salvar vidas e dar transparência às decisões na pandemia de Covid-19, estamos aplicando a ciência da complexidade defendida por ele.

O LAIS é a prova viva de que Morin não se foi intelectualmente; ele nos deixou um legado pulsante. Provamos, diariamente, que é possível desenvolver e executar políticas públicas de saúde de forma contemporânea, ágil e livre das amarras do passado.

Somos mais do que um laboratório de universidade: somos um ecossistema vivo e empreendedor, atuando diretamente no coração da saúde pública, movidos pela certeza de que o conhecimento só faz sentido se estiver interconectado e a serviço da vida.

Obrigado, Edgar Morin, por nos ensinar a enxergar o todo. O LAIS é a sua teoria em movimento.