• Redação
  • 13/10/2026

Deus é mesmo brasileiro? Após a pandemia, Brasil pode enfrentar um Super El Niño com um negacionista na Presidência

Diz o ditado que Deus é brasileiro. Mas a sorte do país pode ser novamente colocada à prova. Depois de enfrentar a pandemia de Covid-19 sob um governo que entrou em confronto com recomendações científicas, o Brasil pode ter pela frente outro grande desafio: um possível Super El Niño. O fenômeno ocorre quando há um aquecimento excepcionalmente intenso das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, alterando a circulação atmosférica e provocando efeitos climáticos em diversas partes do planeta. No Brasil, costuma aumentar o risco de secas no Norte e no Nordeste, enquanto favorece chuvas intensas e enchentes no Sul. Também pode elevar as temperaturas e agravar ondas de calor. Não se trata de uma previsão de desastre inevitável, mas de um risco que exige planejamento, investimento em prevenção e capacidade de resposta do poder público.

O impacto econômico pode ser enorme. Secas prolongadas prejudicam a agricultura, reduzem a geração hidrelétrica, pressionam os preços dos alimentos e aumentam os custos de produção. No Sul, enchentes podem destruir lavouras, estradas, pontes e instalações industriais, comprometendo cadeias produtivas inteiras. Ainda não há uma estimativa consolidada e confiável de quanto o Super El Niño de 2026–2027 poderá retirar do PIB brasileiro. Mas o risco é concreto: o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontou, em setembro, 95% de probabilidade de um El Niño muito forte no trimestre de outubro a dezembro. A NOAA também considera possível que o episódio esteja entre os mais intensos desde 1950. Portanto, além de uma emergência ambiental, o país poderá enfrentar um choque econômico com efeitos sobre inflação, emprego, abastecimento e contas públicas. 

É nesse contexto que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ganha uma dimensão particularmente preocupante. O Brasil poderá enfrentar uma crise climática sob o comando de um grupo político que, durante o governo Jair Bolsonaro, se notabilizou pelo confronto com evidências científicas na pandemia e pelo enfraquecimento da fiscalização ambiental. O próprio Flávio já minimizou a influência humana sobre as mudanças climáticas. Seu programa de governo propõe rever atribuições do Ibama, da Funai e do ICMBio e flexibilizar regras ambientais, embora também prometa combater o desmatamento ilegal. O risco não está apenas na ocorrência do fenômeno, mas na possibilidade de uma resposta governamental insuficiente, justamente quando o país precisará de ciência, coordenação e capacidade estatal. Depois da pandemia, o Brasil pode voltar a descobrir, da pior maneira, que fenômenos naturais não se importam com ideologias. E que negar a realidade não impede suas consequências.