Deputados pedem à PF investigação nacional sobre perseguição a eleitores de Lula
ICL - Deputados federais da base do governo Lula pediram à Procuradoria-Geral da República (PGR), à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público do Trabalho (MPT) a abertura de uma investigação nacional sobre campanhas de perseguição política contra eleitores do presidente reeleito. O documento, datado de terça-feira (27), reúne denúncias de boicotes econômicos, ameaças e incentivos à demissão de trabalhadores após o segundo turno das eleições.
A representação é assinada por Paulo Pimenta (PT-RS), líder do governo na Câmara, Erika Kokay (PT-DF), Maria do Rosário (PT-RS), Bohn Gass (PT-RS) e Alencar Santana (PT-SP).
Os parlamentares apontam a circulação de listas com nomes de comerciantes, empresários, profissionais liberais e trabalhadores identificados como apoiadores de Lula em diferentes regiões do país. As mensagens incentivam consumidores a deixar de frequentar estabelecimentos, romper contratos e pressionar empregadores a demitir funcionários por suas preferências políticas.
O principal objetivo do pedido é descobrir se as campanhas surgiram espontaneamente ou se existe uma estrutura organizada responsável pela elaboração e distribuição das listas, inclusive com eventual participação e financiamento de grupos políticos.
Segundo a representação, a semelhança entre as mensagens, a rapidez com que surgiram após o resultado eleitoral e a utilização de grupos de mobilização de campanha justificam a investigação de uma possível coordenação nacional.
Ameaças de violência e perseguição em oito estados
A representação reúne episódios registrados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Pernambuco, além de publicações de alcance nacional.
Em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, participantes de grupos de WhatsApp identificados como “Movimento Direita LRV” e “Engenheiros e Arquitetos” teriam organizado listas de comerciantes considerados apoiadores de Lula.
Entre as mensagens reproduzidas no documento estão “Que os PT sejam exonerados amanhã!” e “Só na bala agora..”.
Também aparecem propostas para impedir a chegada de ônibus com trabalhadores nordestinos, em uma referência à votação expressiva recebida por Lula na região.
Em Lençóis Paulista, no interior de São Paulo, uma lista foi compartilhada em um grupo originalmente criado para organizar carreatas em apoio ao candidato do PL. Duas empresárias registraram boletins de ocorrência, e a Polícia Civil anunciou a abertura de investigação.
No Paraná, uma relação intitulada “Boicote aos Comércios da Esquerda – PR” reuniu aproximadamente 60 empresas e profissionais de Ponta Grossa.
Os deputados também mencionam manifestações de parlamentares que incentivaram a discriminação de trabalhadores por suas preferências políticas.
A deputada estadual Índia Armelau (PL-RJ), por exemplo, divulgou uma mensagem orientando empresários a verificar as redes sociais de funcionários para descobrir se haviam apoiado Lula. O MPT ajuizou ação civil pública contra a parlamentar.
PF poderá investigar financiamento e articulação política
A representação pede que a Polícia Federal investigue a possível existência de uma estrutura centralizada responsável pela produção e distribuição das listas.
Entre as diligências solicitadas estão a preservação de mensagens, a identificação dos primeiros responsáveis pela divulgação e a comparação dos arquivos compartilhados em diferentes estados.
Os deputados também querem que sejam investigados eventuais administradores comuns aos grupos e a participação de estruturas político-eleitorais no financiamento das campanhas.
O pedido inclui a preservação de registros de plataformas como WhatsApp, Instagram, Facebook, Telegram, X e TikTok.
A investigação solicitada poderá examinar possíveis crimes de perseguição, ameaça, incitação ao crime, discriminação por procedência, associação criminosa e coação eleitoral, dependendo das provas reunidas.
Os parlamentares também pedem que o MPT apure demissões e recusas de contratação motivadas por posicionamento político.
Segundo os dados apresentados na representação, o órgão recebeu 1.937 denúncias de assédio eleitoral até 26 de outubro. Somente naquele dia, foram registrados 140 relatos.
Justiça já condenou responsáveis por listas semelhantes
O documento cita como precedente uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que condenou, em 2025, dois responsáveis pela divulgação de listas de boicote contra comerciantes durante as eleições de 2022.
O caso ocorreu em Cafelândia, no interior paulista. Os condenados participavam de um grupo de WhatsApp que identificava comerciantes considerados adversários políticos de Jair Bolsonaro.
Uma das vítimas relatou que uma bomba foi lançada diante de seu estabelecimento após a divulgação da lista.
Os dois responsáveis foram condenados por perseguição, com penas superiores a um ano de reclusão, além de reparação por danos morais.
Para os autores da nova representação, o precedente demonstra que a divulgação organizada de listas destinadas a intimidar comerciantes pode ultrapassar os limites da manifestação política e configurar crime.
Os deputados defendem que a apuração seja conduzida nacionalmente para evitar que os episódios sejam tratados de maneira isolada.
A PGR deverá avaliar os pedidos apresentados, incluindo a possibilidade de requisitar a abertura de inquérito pela Polícia Federal e de encaminhar ao STF eventuais indícios envolvendo parlamentares com foro por prerrogativa de função.