• Redação
  • 11/09/2026

Daniel vorcaro sabia da operação Compliance Zero e antecipou viagem a dubai, diz PF

Amado Mundo - O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, antecipou seu voo a Dubai para 17 de novembro de 2025 como uma tentativa de evitar a prisão na Operação Compliance Zero, deflagrada no dia 18 de novembro do ano passado, mostram documentos da Polícia Federal ligados à investigação que tiveram sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, na noite desta quinta-feira (10/9). Os relatórios apontam que a viagem do banqueiro na véspera da batida da PF, justificada por ele como uma tentativa de angariar investidores estratégicos para uma eventual aquisição do Banco Master, reforçam a tese de fuga e não uma “mera coincidência”.

Vorcaro também realizava pagamentos recorrentes de propina ao chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Disop) do Banco Central, Bellini Santana, conforme aponta a PF em documentos. Os repasses eram feitos por Fabiano Zettel, cunhado e sócio de Vorcaro.

Os relatórios fazem parte da derrubada de sigilo de uma parte dos inquéritos sobre o Master que circulam no STF, a pedido do presidente do Supremo, o ministro Edson Fachin.

A fuga de Daniel Vorcaro e a compra do Banco Master

Vorcaro sabia que a PF vinha se reunindo com representantes do Banco Central para discutir sobre investigações contra o Master. Segundo a corporação, em 21 de outubro, o banqueiro redigiu no aplicativo “Notas” de seu celular o nome dos policiais federais que se reuniram com o BC, o que indica acesso de dentro aos encontros entre as autoridades.

Já em 16 de novembro, Vorcaro escreve no “Notas” perguntando sobre a proximidade de um interlocutor com o juiz federal Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, dois dias antes da Compliance Zero. O magistrado examinou casos envolvendo o Master, inclusive o acordo do banco com o BRB. A indagação, reforça a PF, aumenta ainda mais a suspeita de vazamento de informações a Vorcaro.

Na manhã da véspera da prisão, Vorcaro recebeu uma mensagem de seu advogado de defesa, Walfrido Warde, às 7h28, segundo a PF. Ele então mudou de ideia sobre o dia em que faria a viagem a Dubai, e informou às 8h48 que agendaria o voo saindo do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

Paralelamente, Daniel Vorcaro se articulou com dois servidores do BC, Belline Santana e Paulo Sérgio Souza, chefe-adjunto do Desup, para marcar uma reunião com o chefe de Fiscalização do BC, Ailton Aquino. A reunião foi marcada para as 13h15, mas começou às 13h35. A suspeita da PF a partir desse momento é de que Vorcaro comunicou que o Grupo Fictor planejava adquirir o Banco Master. Mais tarde, Vorcaro vazou a história à imprensa, mas não houve surpresa dos servidores, o que sugere uma articulação com o BC.

À noite, prestes a embarcar em Congonhas para Dubai, Vorcaro foi interceptado pela PF e preso. No dia seguinte, teve início a Operação Compliance Zero.

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master (Foto: Divulgação/Banco Master)

Ainda segundo a PF, Vorcaro se valeu da reunião com o BC como um dos argumentos para que sua defesa conseguisse o alvará de soltura do banqueiro dez dias depois da prisão, pela desembargadora Solange Salgado Silva, do TRF-1.

“Diante de todo o exposto, conclui-se pela existência de fortes elementos indicativos de condutas de Daniel Vorcaro e associados direcionadas a proteger o núcleo dirigente da organização criminosa, mediante conhecimento antecipado de atos processuais e articulações com interlocutores em órgãos de controle, ao lado de planejamento logístico para saída do país em janela próxima à deflagração de medidas, o que, somado às comunicações com autoridades e ao acompanhamento de procedimentos internos, compõe o retrato dos ‘tentáculos’ em estruturas públicas e privadas”, diz a PF em relatório.

Propina a servidores do BC

Belline Santa e Paulo Sérgio Souza atuaram como consultores de Vorcaro reiteradas vezes, aponta a investigação. Os dois, responsáveis pela supervisão e enquadramento de instituições financeiras no sistema financeiro, cobravam propina quando revisavam documentos, davam conselhos e até preparavam o que Vorcaro falaria em reuniões com o órgão.

Belline recebia pagamentos de Vorcaro feitos por Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro. Em dezembro de 2023, o banqueiro questionou se o pagamento está saindo diretamente dos cofres do Master, e Zettel negou.

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Em 9 de janeiro de 2024, Zettel enviou uma mensagem em que relata uma pendência no pagamento a Belline. Vorcaro confirmou que pagaria o chefe de supervisão bancária do BC, em mensagem no dia 30 do mesmo mês. Já em outubro de 2024, Vorcaro reclamou com um interlocutor de que o destino de um pagamento feito por ele não estava correto. Deveria ser, na verdade, para Bellini. O valor indicado era de R$ 760 mil.

Atuação dos servidores a favor do Master

Em conversa com Daniel Vorcaro, Paulo Sérgio mandou a portaria em que consta sua promoção a chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do BC. A partir da ascensão ao cargo, o servidor do BC passou a “tomar a liberdade” de dar conselhos ao dono do Banco Master sobre como se comportar em reuniões com o “PRESI”. O “PRESI”, no caso, é Roberto Campos Neto, à frente do BC na época.

O dono do Master foi então orientado a apontar como o Will Bank, fintech de crédito e contas voltada para classes mais baixas, poderia ser usado para facilitar o pagamento de consignado a base de clientes do Credcesta.

Nota-se a teia de produtos do ecossistema do Master: Credcesta era o braço de crédito de Daniel Vorcaro e seu sócio, Augusto Lima, para atuarem no empréstimo consignado a servidores públicos. A modalidade reunia 4 milhões de correntistas, o que deveria ser enfatizado a Campos Neto na reunião, conforme conselho de Paulo Sérgio.

Os avisos do servidor do BC, segundo a PF, culminaram na aquisição do Will Bank pela Reag e pelo Master.

Para além de atuar como consultor, Paulo Sérgio tentou atuar em favor de Vorcaro para alterar normas do enquadramento de entidades que atuam na Superintendência de Previdência Complementar (Previc). Vorcaro avaliava que somente os grandes bancos tinham acesso ao órgão, o que seria prejudicial para os negócios do Master.

Do outro lado, Belline, chefe do Desup, atuou para favorecer Daniel Vorcaro diante da Diretoria de Fiscalização do (Difis), sob gestão de Ailton Aquino. Belline foi consultado sobre um documento que seria apresentado ao departamento que monitora a saúde financeira das instituições bancárias e aplica medidas sanções necessárias.