• Redação
  • 01/11/2026

BALANÇO - O marketing de Cadu acertou na simplicidade, o de Allyson na estratégia e o de Álvaro perdeu o rumo: um balanço da eleição de 2026

CADU

Passada a eleição de 2026, é hora de avaliar também o desempenho dos profissionais de marketing político que atuaram na disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte. O marketing de Cadu Xavier foi de uma nota só, e isso não é necessariamente uma crítica. Apostou praticamente todas as fichas na associação do candidato a Lula, seu principal ativo eleitoral. Diante da baixa aprovação de Fátima Bezerra, a estratégia foi nacionalizar a disputa, sem necessariamente esconder a governadora. Era o caminho mais lógico. A vitória, entretanto, ocorreu em circunstâncias históricas muito específicas, com uma vantagem expressiva de Lula sobre Flávio Bolsonaro no RN e uma mobilização eleitoral extraordinária, marcada pela redução da abstenção e dos votos brancos e nulos, ampliando o universo de votos válidos. O marketing cumpriu seu papel, mas o resultado também dependeu de condições excepcionais que ultrapassavam sua capacidade de intervenção.

ÁLVARO DIAS

O marketing de Álvaro Dias, por sua vez, foi o mais errático dos três. Começou com a aproximação ostensiva de Flávio Bolsonaro e o movimento Endireita RN, passou por uma fase em que essa vinculação nacional perdeu espaço na comunicação e terminou novamente apostando na associação com Flávio. Faltou uma linha estratégica consistente e, sobretudo, uma marca política claramente identificável. É verdade que Álvaro enfrentava dificuldades adicionais, especialmente o desgaste associado à engorda de Ponta Negra e às obras inacabadas em Natal. Havia, portanto, problemas concretos com a matéria-prima disponível para construir sua imagem. Mas justamente por isso seria necessário um posicionamento mais consistente. A campanha oscilou entre diferentes caminhos e terminou sem oferecer ao eleitor uma identidade suficientemente definida para sua candidatura.

ALLYSON BEZERRA

Já o marketing de Allyson Bezerra apresentou uma estratégia clara e bem executada. A aposta foi construir a imagem de um candidato da mudança, capaz de resolver problemas independentemente de quem ocupasse a Presidência da República. Essa narrativa encontrava sustentação na boa avaliação de sua gestão em Mossoró e na decisão de evitar um alinhamento presidencial explícito. Foi um marketing exitoso, ainda que derrotado por margem estreita. Sua maior dificuldade surgiu no segundo turno, quando apoios de lideranças vinculadas a Flávio Bolsonaro produziram ambiguidades na comunicação. Cadu explorou essa brecha para tentar associar Allyson ao candidato presidencial derrotado no RN. Mas é discutível até que ponto o marketing conseguiria controlar esse movimento, já que parte dos novos aliados tinha interesse próprio em vincular Allyson a Flávio, inclusive para fortalecer a candidatura presidencial. No fim, essa atuação pode ter prejudicado os dois, enfraquecendo a mensagem de independência de Allyson sem assegurar a vitória de Flávio.

O BALANÇO NÃO PODE SE RESUMIR ÀS PESQUISAS

O balanço da eleição não pode se limitar às pesquisas eleitorais, como frequentemente acontece depois de cada disputa. É preciso avaliar também o desempenho dos marqueteiros, dos analistas políticos e dos demais atores que participam da construção das narrativas eleitorais. No RN, tivemos uma campanha vencedora que soube explorar um ativo nacional extraordinário, outra que construiu uma identidade competitiva e quase venceu, e uma terceira que não conseguiu estabelecer uma direção consistente. A lição é que marketing não faz milagres, mas pode potencializar vantagens, administrar fragilidades ou desperdiçar oportunidades. E avaliar sua qualidade exige olhar para as escolhas estratégicas, não apenas para o placar final das urnas.