• Redação
  • 11/08/2026

Baixa vacinação no RN também tem raízes políticas: o preço do negacionismo bolsonarista

A baixa adesão à vacinação em Natal não pode ser tratada apenas como um problema de comunicação das autoridades sanitárias. Em junho, mesmo após a ampliação da vacinação contra a gripe para toda a população, somente 30,14% do público prioritário havia sido imunizado, muito distante da meta de 90% estabelecida pelo Ministério da Saúde. Agora, diante da preocupação com o retorno do sarampo e da necessidade de recuperar coberturas vacinais, é impossível ignorar o ambiente de desconfiança em relação às vacinas alimentado durante os anos da pandemia. Nesse aspecto, a extrema direita bolsonarista e os setores da mídia potiguar que reproduziram ou deram ampla repercussão ao discurso negacionista também têm culpa no cartório.

Para sustentar politicamente Jair Bolsonaro durante a Covid-19, parte desse campo relativizou justamente uma das maiores conquistas da saúde pública brasileira: a vacinação. Enquanto Bolsonaro questionava reiteradamente a centralidade das vacinas e defendia o chamado “tratamento precoce”, medicamentos como ivermectina e hidroxicloroquina eram promovidos apesar da ausência de evidências de eficácia contra a doença. No próprio Rio Grande do Norte, a ivermectina ganhou defensores em espaços de grande audiência: houve médica ligada à Associação Médica do RN defendendo o tratamento precoce em entrevistas, por exemplo. Em Natal, a defesa institucional da ivermectina chegou a tal ponto que a Justiça determinou em 2021 sua retirada do protocolo municipal contra a Covid-19 e proibiu sua divulgação como tratamento preventivo.

O problema é que o obscurantismo deixa herança. Quando médicos transformados em estrelas do rádio, comunicadores e lideranças políticas passam meses colocando medicamentos sem eficácia comprovada no mesmo patamar, ou acima, da vacinação, o estrago sobre a confiança pública não desaparece quando termina a pandemia. A hesitação vacinal brasileira foi efetivamente atravessada pela polarização política, como apontaram pesquisas sobre o comportamento nas redes durante a Covid-19. Por isso, diante da ameaça representada pela volta de doenças imunopreveníveis como o sarampo, cabe cobrar responsabilidade não apenas do poder público pela cobertura insuficiente, mas também daqueles que ajudaram a transformar vacina, evidência científica e saúde pública em armas de uma guerra ideológica. O negacionismo pode até ter rendido audiência e dividendos políticos; sua conta sanitária, porém, continua chegando.