Apostando no Acaso: O Que o Boom das Bets Revela Sobre o Futuro do Brasil
Por Ricardo Valentim
Professor Titular da UFRN e Cofundador do LAIS
O Brasil carrega há décadas o incômodo título de "país do futuro", mas a verdade nua e crua é que esse horizonte parece nunca chegar. Embora o país tenha registrado momentos de crescimento econômico ao longo de sua história, falhou continuamente em se transformar em uma nação desenvolvida, estável e com uma classe média verdadeiramente robusta. À medida que nos aproximamos de mais um processo eleitoral, a pauta que realmente deveria nortear o debate público — o desenvolvimento estrutural e o aumento real da riqueza da população — continua completamente ausente e negligenciada pela classe política. Em vez de discutirmos como transformar o Brasil em uma economia de alto valor agregado que exporta conhecimento, testemunhamos o avanço de uma alarmante epidemia de endividamento, impulsionada por um consumo baseado em linhas de crédito que apenas mascaram a estagnação dos salários.
O sintoma mais gritante dessa fragilidade e da perda de perspectiva no trabalho produtivo reflete-se na atual febre das apostas esportivas, conhecidas como bets. Enquanto os esforços somados do governo e da iniciativa privada para investir em inovação, tecnologia e infraestrutura geram pouco mais de R$ 140 bilhões por ano, estima-se que a população vá movimentar quase R$ 400 bilhões em apostas neste ano de 2026. Apostar quase três vezes mais do que se investe no próprio futuro é o retrato de um país que trocou a busca pelo ganho produtivo pela ilusão da sorte individual. Sem uma mudança drástica de postura, a conta se tornará ainda mais impagável diante dos sérios problemas demográficos que se aproximam, já que o envelhecimento acelerado da população significa que haverá cada vez menos pessoas em idade ativa para sustentar a previdência e o custo de vida dos mais velhos.
Toda essa engrenagem travada converge para o verdadeiro vazio da nossa economia: a produtividade estagnada, que não é um mero jargão econômico, mas sim a capacidade de produzir mais e melhor com menos esforço e maior retorno. Atualmente, a produtividade média do trabalhador brasileiro opera em níveis severamente deprimidos, comparáveis aos registrados no ano de 1958. Em 1980, no nosso pico produtivo, o país representava 2,8% do PIB global, enquanto hoje essa participação encolheu para meros 2,1%. Nas últimas décadas, o ritmo de crescimento brasileiro foi tão medíocre que amargamos a 102ª posição em um ranking de 153 nações, ficando atrás inclusive de países que atravessaram guerras devastadoras no mesmo período, como a Nigéria e o Iraque. Não por acaso, ocupamos a vexatória 65ª posição em um ranking de competitividade que analisa 70 países.
Para romper esse ciclo e livrar o país dessa âncora do atraso, a produtividade e a superação do subdesenvolvimento precisam ser tratadas como uma autêntica agenda de Estado, blindada contra sequestros ideológicos ou disputas partidárias de ocasião. Como bem apontava Celso Furtado, o subdesenvolvimento não é uma etapa prévia para o desenvolvimento, mas sim uma estrutura própria e crônica que se perpetua se não houver uma industrialização deliberada e direcionada pelo conhecimento e pela soberania tecnológica. Romper essa inércia exige aquilo que a economista Mariana Mazzucato conceitua como um "Estado empreendedor", isto é, um Estado que não se limita a corrigir falhas de mercado ou tapar buracos fiscais, mas que atua de forma estratégica e dinâmica, estabelecendo grandes missões nacionais capazes de direcionar os investimentos públicos e privados para a inovação de alto valor agregado.
Historicamente, o Brasil tem se mostrado um especialista em tributar o cidadão e o setor produtivo, asfixiando quem gera riqueza em vez de usar o poder indutor do Estado para robustecer seus fundamentos reais. A inclusão social pautada prioritariamente pelo estímulo ao consumo e pelo endividamento provou-se insustentável no longo prazo; é ela a responsável por nossos recorrentes "voos de galinha" — ciclos breves de euforia seguidos por longas recessões e estagnação profunda. O poder público deveria canalizar seus esforços para a desburocratização severa, o apoio estratégico a quem produz e o investimento massivo em infraestrutura essencial. Somente o cumprimento rigoroso de uma agenda disciplinada de Estado, focada no ganho de produtividade real, será capaz de pavimentar o caminho para que a população alcance uma alta renda de forma sustentada e sustentável. Sem gerar riqueza na base produtiva, qualquer tentativa de distribuição de renda é temporária, e o país continuará patinando na mediocridade, incapaz de reduzir suas desigualdades de maneira definitiva. O Brasil precisa, urgentemente, sair do encapsulamento das políticas puramente compensatórias para uma verdadeira agenda de desenvolvimento econômico, pois apenas crescer a economia de forma quantitativa não é suficiente e tampouco gera riqueza social real. Enquanto o debate político ignorar essa urgência e o país preferir apostar na sorte em vez de planejar sua própria inteligência, resta ao cidadão compreender que não se pode depender do governo da vez, tornando a educação financeira — sem acreditar em apostas milagrosas (Bets) — e a proteção ativa do próprio futuro ferramentas indispensáveis de sobrevivência e liberdade individual.