• Redação
  • 11/10/2026

Acordão? Jair Bolsonaro solto, Flávio livre de Master e INSS e Moraes ‘esquecido’


Eliane Cantanhede - Estadão - A guerra continua no Supremo Tribunal Federal e os sinais trocados dados pelo ministro Alexandre de Moraes geraram uma dúvida nos ares de Brasília: há um acordão à vista para salvar Moraes, de um lado, e Jair e Flávio Bolsonaro, do outro? Moraes precisa mais dos Bolsonaro do que eles dele, mas convém a todos deixar o caso Master para lá.

Dois movimentos crescem juntos, um para livrar Jair da cadeia e deixar para lá os R$ 134 milhões que Flávio pediu, nada mais, nada menos, para Daniel Vorcaro, e outro, no sentido oposto, para facilitar impeachment de ministros do Supremo no Senado, algo feito de encomenda para Moraes. O acordo seria para fortalecer o movimento pró-Bolsonaros e enfraquecer o anti-Moraes.

Desde o julgamento do golpe no Supremo, os dois lados são inimigos, mas agora têm, vamos dizer assim, “interesses comuns” que vêm sendo discutidos por amigos e interlocutores, na velha base dos casamentos políticos em Brasília: você me salva, eu te salvo e seremos todos felizes para sempre.

Que tal diminuir os R$ 130 milhões do contrato que a família de Moraes fez com Vorcaro dos R$ 134 milhões que Flávio pediu para o filme do pai? Praticamente zera a conta e fica tudo como está, com Jair Bolsonaro livre, leve e solto, Flávio dispensado de explicar “Dark Horse” (de quebra, endereço, conta e contador ligados ao escândalo do INSS) e Moraes tendo chance de sair de fininho, sem processo.

A história se repete “como tragédia ou como farsa” e, se tudo isso estiver de fato rolando nos corredores e gabinetes e der resultado, será impossível não lembrar que Lula foi condenado e preso por 580 dias, mas se livrou e voltou a subir a rampa do Planalto por uma manobra do próprio STF.

E Michel Temer nisso tudo? Tratado como inimigo do PT desde que saiu da vice para a Presidência com o impeachment de Dilma Rousseff, foi ele quem nomeou Moraes para o Supremo e agora apoiou rapidamente Flávio no segundo turno. Logo, tem como fazer uma ponte entre Flávio e Moraes. Aliás, como foi, de fato, a conversa de Gilmar Mendes com Flávio?

Como todo “xerife”, Moraes foi rápido no gatilho, mas não para atirar no bolsonarismo, ao contrário. Mal terminou o primeiro turno, com Flávio à frente do presidente Lula, ele mandou a Débora do Batom, condenada a 14 anos por violar a estátua da Justiça no 8/1, para a prisão domiciliar. E não ficou por aí.

Ato contínuo, mandou arquivar as investigações contra os bolsonaristas Marcos Do Val, senador, e Alan dos Santos e Oswaldo Eustáquio, blogueiros, que respondiam por obstrução de Justiça e incitação ao crime. Por fim, autorizou a visita de Flávio ao pai. Nada demais, mas, nesses tempos de bang bang institucional, a sequência e a oportunidade deixam uma pulga atrás da orelha.

Tudo isso foi na semana do primeiro turno, mas ela fechou com uma reviravolta. Após acenar com decisões simpáticas a Flávio e deixar suspeitas de acordão no ar, Moraes mandou emitir mandado de prisão e suspender os passaportes de Eduardo Bolsonaro.

Ele teve de recuar porque suas intenções estavam ficando óbvias demais, ou a tentativa de acordão deu para trás? Pode até ser, porque Moraes está numa situação muito mais frágil e, do outro lado, tudo já caminha para soltar Jair Bolsonaro, inclusive no Supremo, onde pelo menos quatro ministros já trabalham nisso. Quanto a Flávio, basta garantir a vitória no segundo turno. Durante a vigência do mandato, segundo a Constituição, presidentes não podem ser responsabilizados por atos estranhos ao exercício de suas funções.

Jair e Flávio dependem da vitória. Moraes precisa de muito mais. Dê Flávio ou Lula, vai enfrentar um Senado com sangue na boca contra ele e um Supremo em chamas, com o esforço de Gilmar Mendes e Flávio Dino para embolar tudo, investigar os outros três ou quatro ministros envolvidos com Master e fazer valer a regra: ou se salvam todos (inclusive Moraes), ou não se salva ninguém.

E se Lula vencer? A história será outra, mas o bolsonarismo estará forte no Senado, a crise vai se manter no Supremo e os acordões também vão correr soltos, para um lado e para o outro. Pelo andar da carruagem, nem Jair Bolsonaro vai continuar preso, nem Flávio vai responder por Master e INSS, nem Moraes se tornará exemplo de que “a lei vale para todos”. Lulinha? Está no limbo.