A Toga Evangélica e a Indústria do Voto Sagrado, um Cavalo de Troia no STF
Ricardo Valentim
Professor Titular da UFRN e Cofundador do LAIS
O Brasil em época de eleição sempre vira um caldeirão, mas ultimamente a cena política parece um roteiro que mistura fé e disputa por espaço da forma mais rasteira possível. O Supremo Tribunal Federal virou o novo alvo dessa investida. De repente, para interpretar a Constituição e julgar os destinos da nossa gente, o saber jurídico e a postura ética deixaram de bastar. Criou-se a absurda exigência de um carimbo prévio, o rótulo de ser "terrivelmente evangélico".
A separação entre Igreja e Estado, uma conquista que custou séculos de sofrimento e sangue na história da humanidade, foi jogada para escanteio como se não valesse nada. Tratam a laicidade como mero detalhe burocrático, enquanto grupos organizados tentam transformar uma das cadeiras mais importantes da República em um púlpito improvisado.
Esse moralismo que tenta constranger o tribunal guarda uma hipocrisia das mais antigas, o mais puro farisaísmo. Por fora, prega-se uma conduta pura e irrepreensível diante dos holofotes, mas por dentro correm as negociações mais cruas de bastidor. Empurrar essa pauta goela abaixo do Judiciário não tem ligação com espiritualidade sincera, e sim com um projeto pragmático de controle de mentes e votos.
A história não mente quando nos avisa que nenhuma sociedade encontra paz duradoura quando a fé de alguns vira a obrigação de todos. Forçar dogmas sobre um povo tão diverso e plural como o nosso apenas sufoca a liberdade de quem pensa diferente, de quem professa outra crença ou simplesmente decide não crer em nada.
Colocar alguém na Suprema Corte guiado por esse propósito funciona como um cavalo de Troia dentro da nossa democracia. As pessoas comuns acabam presas em discussões desgastantes sobre costumes, enquanto a máquina política do voto religioso avança nos gabinetes. Esse uso da religião não existe para acolher nem confortar ninguém, mas sim para garantir fidelidade cega nas urnas e privilégios no poder.
Enquanto a Suprema Corte se vê tensionada e dividida por esse cavalo de Troia, essa tentativa de infiltração teocrática, o cidadão brasileiro vira refém de uma cortina de fumaça. Gastamos energia coletiva com cruzadas morais fabricadas, enquanto a vida real das famílias segue desamparada. As filas nos postos de saúde, a falta de estrutura nas escolas, o aperto no bolso e o medo da violência urbana acabam esquecidos em meio ao barulho do proselitismo.
A nossa democracia precisa ter a coragem de perguntar até quando vai permitir que projetos de poder usem a fé popular para manietar as instituições, tentando transformar o pacto constitucional em panfleto dogmático enquanto o Brasil de verdade clama por dignidade e futuro.