A Hegemonia do Passado e a Urgência do Feminino no STF
Por Ricardo Valentim
Professor Titular da UFRN e Cofundador do LAIS
O cenário político recente, marcado por reveses estratégicos para o governo, cristaliza uma necessidade que transcende a mera conveniência partidária: a urgência de uma indicação feminina para o Supremo Tribunal Federal. A derrota na articulação de nomes como o de Jorge Messias não deve ser lida apenas como um fracasso individual ou técnico, mas como o esgotamento de uma agenda de esquerda que, muitas vezes, parece orbitar em um vácuo desconectado das prioridades reais da nação. Ao insistir em nomes que reforçam o círculo de confiança imediato em detrimento da representatividade, o Executivo ignora que a sociedade brasileira está exausta de uma polarização alimentada por binarismos estéreis. Nesse jogo de forças, a racionalidade é sacrificada no altar do engajamento digital e da fidelidade cega, deixando a população órfã de um debate institucional equilibrado.
A hegemonia masculina no STF não é um detalhe de bastidor; é uma evidência gritante de um anacronismo que compromete a legitimidade da mais alta Corte do país. Em uma democracia moderna, a justiça não pode ser interpretada exclusivamente sob a ótica de um único gênero, sob o risco de manter o tribunal como um reduto de privilégios históricos. A resistência em priorizar uma jurista mulher desde o início do mandato revela uma negligência simbólica profunda, sugerindo que as pautas de diversidade servem mais ao palanque do que à caneta de quem decide. Se o governo deseja verdadeiramente reconectar-se com a agenda nacional e superar o cansaço social da polarização, deve abandonar o pragmatismo das alianças masculinas e reconhecer que a renovação do Judiciário passa, obrigatoriamente, pelo fim dessa invisibilidade feminina institucionalizada. A próxima indicação será o termômetro final: ou se corrige o rumo histórico, ou se confirma que a mudança proposta era apenas retórica.