A "Facada Jurídica": Como Criar um Mártir Político por Acidente
Por Ricardo ValentimProfessor
Titular da UFRN
A decisão monocrática de calar a campanha digital de Renan Santos é a prova irrefutável de que certas alas da Justiça Eleitoral não apenas ignoram a história recente, como fazem questão de repeti-la como comédia. Ao tentar isolar o candidato sob a grave acusação burocrática de não ter listado a tempo todos os seus links na internet, desferiu-se uma espécie de "facada jurídica" cirúrgica. O problema é que, no laboratório político nacional, esse tipo de golpe costuma funcionar como um poderoso tônico eleitoral, transformando o alvo em uma vítima irresistível aos olhos do público e garantindo-lhe o monopólio absoluto das atenções, exatamente como o atentado de 2018 fez com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O ecossistema político nacional possui uma paixão incurável pelo melodrama da perseguição e pela estética do mártir injustiçado. Cortar as asas digitais de um candidato em plena campanha por meras formalidades procedimentais equivale a tentar apagar uma fogueira jogando combustível de alta octanagem, pois o eleitor médio não tem o menor interesse em ler as entrelinhas dos autos processuais.
O cidadão comum enxerga apenas a máquina pesada do Estado tentando esmagar um nome incômodo, o que valida de forma instantânea e gratuita todo o discurso antissistema que a candidatura pretendia explorar.A ironia do erro salta aos olhos: para "proteger" a isonomia do pleito, cria-se uma assimetria gigantesca que beneficia justamente quem se pretendia punir. Ao invés de desidratar o palanque do político, a canetada salvadora acabou por lhe conceder o ativo mais precioso da era das redes sociais: a narrativa da mordaça.
O veto à participação em debates cria o irônico "efeito da cadeira vazia", onde a ausência do candidato nos estúdios de televisão grita e reverbera muito mais forte do que qualquer proposta que ele pudesse gaguejar no microfone. A história se repete sem pudor, mudando apenas o cenário e a arma do crime; saem os palanques de rua e entram as salas refrigeradas de Brasília, mas a fórmula de transformar um ataque institucional em um passaporte para a relevância nacional continua rigorosamente a mesma.
Para acompanhar a amplitude deste debate e as críticas sobre o evidente excesso da medida, vale conferir as análises detalhadas publicadas tanto pela Folha de S.Paulo quanto pela BBC News Brasil, que apontam o imenso desconforto que a decisão monocrática gerou entre especialistas e dentro dos próprios bastidores da corte eleitoral.
Fontes: bbc.com/portuguese/articles/cx2zq49q2nzo / https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/08/decisao-de-toffoli-contra-renan-santos-e-alvo-de-criticas-no-tse-e-ministros-defendem-debate-em-plenario.shtml.