13 de abril de 2026

Jean Paul diz ter resistido a pressões por “vantagens” na liberação de emendas quando era senador

Autor: Daniel Menezes

Por O Correio de Hoje / Agora RN

13/04/2026 | 16:11

O ex-senador Jean Paul Prates, pré-candidato ao Senado pelo PDT, afirmou ter enfrentado pressão de gestores públicos pela negociação de “vantagens” na destinação de emendas parlamentares. Em entrevista à rádio Universitária, ele criticou o uso político desses recursos e detalhou bastidores da sua atuação no Congresso Nacional.

Ao relatar episódios vividos durante o mandato, Jean disse que prefeitos chegaram a sugerir contrapartidas indevidas ao serem comunicados sobre a liberação de verbas para o projeto Areninhas.

Jean Paul Prates Central Agora RN (39)

Ex-senador potiguar Jean Paul Prates tenta retomar o mandato, agora no PDT - Foto: josé aldenir / o correio de hoje

“Tinha prefeito, gente, que ia no gabinete e eu dizia que ia dar uma areninha. O cara virava para mim e falava assim: ‘mas o senhor não quer nada, não?’”, afirmou. Segundo ele, a abordagem se repetia de forma mais explícita em seguida. “Uma volta de 10%? Não vai indicar ninguém, não? […] O senhor não vai pedir para fazer a obra? Eu disse: ‘não, cara’”, relatou. Diante da insistência, disse que reforçava a natureza pública dos recursos. “Gente, pelo amor de Deus, o dinheiro é de vocês”, declarou.

A crítica se insere em uma avaliação mais ampla sobre o papel do parlamentar e o uso das emendas. Para Jean, há uma distorção na forma como a atividade é apresentada à população. “O senador e o deputado não podem ser despachantes de dinheiro”, afirmou, ao concordar com questionamento sobre a prática recorrente de associar mandato à simples liberação de verbas. Ele defendeu que a função central do parlamentar é outra. “O trabalho do legislador é legislar, discutir, parlamentar no Senado, no Colégio de Líderes”, disse.

O ex-senador também criticou a tentativa de transformar a entrega de obras em capital político direto. “Isto aqui é trabalho do mandato do senador Jean. Trabalho o quê, cara?”, questionou, ao citar a inauguração de uma areninha em Maxaranguape. Segundo ele, o diferencial está na estruturação de políticas públicas completas.

“Trabalho é a gente montar um programa inteiro de 72 areninhas potiguares no Estado inteiro, com professores de educação física em cada uma dessas areninhas por dois anos, com bolsa para dois outros bolsistas em cada cidade, por dois anos, para ativar aquele equipamento. Não é só uma obra”, explicou, citando parceria com o IFRN e ações de manutenção e uso dos espaços.

Jean Paul também mencionou iniciativas voltadas a outras áreas, como a visibilidade de povos indígenas no Estado. “Eu descobri que eles eram invisíveis. O IBGE dava zero indígena no Rio Grande do Norte. Como é que um lugar que se chama ‘potiguar’ no IBGE aparece zero indígena?”, afirmou. Segundo ele, um programa articulado pelo mandato ajudou a reverter esse quadro. “E mudou por causa do nosso programa de visibilidade. Pergunte aos indígenas do Tapará, do Ipaqui, do Catu”, disse.

Além da crítica ao uso das emendas, o ex-senador ampliou o debate ao funcionamento do Congresso e à percepção pública sobre o trabalho parlamentar. Ele relatou a experiência como líder da minoria no Senado, função que assumiu em menos de um ano de mandato, reunindo bancadas de partidos como PT, PSB, Psol e Rede. “Isso é trabalho. Nós precisamos acostumar as pessoas a saber que é isso que se espera de um senador”, afirmou, ao destacar articulações, definição de pautas e orientação de votos como parte da atividade legislativa.

Eleições

A entrevista também avançou para o cenário político do Rio Grande do Norte. Jean avaliou que a disputa estadual tende a se polarizar e fez críticas diretas a pré-candidatos. “De um lado, vai estar o campo progressista e, do outro lado, estarão dois grupos que representam duas décadas passadas: o grupo dos oligarcas e o grupo dos coronéis”, afirmou.

Ao comentar alianças políticas, ironizou a presença recorrente de famílias tradicionais. “Todo mundo que já concorreu à eleição em grupos aqui no Rio Grande do Norte sempre teve um Maia ou um Alves de estimação”, disse. Em seguida, reforçou a crítica. “E tem dois coronéis do velhos tempos, Rogério Marinho e Álvaro Dias. Típicos coronéis”, declarou.

Jean também comentou pesquisas eleitorais, citando levantamentos que, segundo ele, mostram cenário de equilíbrio. Defendeu que pesquisas nacionais devem ser observadas com mais atenção por não estarem vinculadas a interesses locais. Ainda projetou crescimento do campo governista e afirmou que o pré-candidato Cadu Xavier (PT) deve chegar ao segundo turno da disputa para o Governo do Estado.

No plano nacional, o ex-senador abordou temas como privatizações e direitos trabalhistas. Disse ter atuado contra a privatização dos Correios e da Casa da Moeda e criticou a lógica de tratar estatais apenas sob o critério de lucro. “Correios não foi feito para dar lucro”, afirmou, citando o caso do serviço postal dos Estados Unidos, que, segundo dados mencionados na entrevista, registrou prejuízo de cerca de US$ 9 bilhões no último ano fiscal.

Sobre o mercado de trabalho, defendeu a revisão da jornada 6×1 e a criação de proteção para trabalhadores de aplicativos. “Você que está trabalhando mais, é você que está mais estressado”, disse, ao criticar a intensificação do trabalho mesmo diante de avanços tecnológicos. Também alertou para a necessidade de novas regras para o setor. “A gente simplesmente quer que você tenha um direito mínimo que essas empresas podem sim pagar”, afirmou.

Ao final, Jean defendeu maior valorização das lideranças políticas locais e criticou o que chamou de “complexo de vira-lata” da esquerda potiguar. “Nós, como líderes da esquerda, temos que nos prestigiar ao invés de nos atacar”, disse. Ele reforçou que a disputa no estado será marcada por confronto entre projetos políticos distintos e que pretende manter o debate centrado em propostas e no papel do Estado na garantia de serviços públicos.

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