6 de abril de 2026

Articulação atua para frear lobby do clã Bolsonaro nos EUA contra a democracia no Brasil

Autor: Daniel Menezes

Entidades da sociedade civil, observadores, empresas e até mesmo intermediários do governo atuam nos bastidores para tentar frear o lobby de Flávio Bolsonaro nos EUA e denunciar a ingerência externa em processos democráticos por parte de Donald Trump.

O ICL Notícias apurou com exclusividade que senadores e deputados democratas, assim como técnicos do Escritório de Comércio da Casa Branca e outros interlocutores, estão recebendo informações para desmontar os argumentos usados pelo clã Bolsonaro para promover algum tipo de ingerência externa na eleição brasileira.

Na semana passada, Flávio viajou para os EUA e, em um discurso em um evento ultraconservador no Texas, sinalizou sua vontade de atender aos interesses de Trump em diversas áreas, caso seja eleito. Mas um dos elementos que chamou a atenção foi sua postura de provocação para que a Casa Branca fiscalize a eleição no Brasil, assim como a promessa de um acordo sobre terras raras e a classificação do narcotráfico em “grupos terroristas”.

Dias depois, O Comitê Judiciário da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos publicou um novo relatório sobre o Brasil, com ataques contra o ministro Alexandre de Moraes. O órgão é liderado pelo deputado Jim Jordan, da base mais radical dos republicanos, e que recebeu, em janeiro, tanto Eduardo como Flávio Bolsonaro.

Jordan é um velho conhecido do movimento conspiracionista. Na luta para reverter os resultados das eleições de 2020, democratas apontam que Jordan foi “o homem de confiança de Trump — usando seu poder no Congresso para espalhar teorias da conspiração infundadas sobre as eleições de 2020, o que levou insurgentes a Washington, D.C., para realizar um ataque ao Capitólio dos EUA”.

No relatório final do Comitê que investigou os ataques de 6 de janeiro de 2021, ele é também alvo de denúncias.“O deputado Jordan foi uma figura importante nos esforços do presidente Trump. Ele participou de inúmeras reuniões pós-eleitorais nas quais altos funcionários da Casa Branca, Rudolph Giuliani e outros discutiram estratégias para contestar a eleição, principalmente alegações de que a eleição havia sido fraudada”, disse o informe.

“Em 2 de janeiro de 2021, o deputado Jordan liderou uma teleconferência na qual ele, o presidente Trump e outros membros do Congresso discutiram estratégias para adiar a sessão conjunta de 6 de janeiro”, explicou.

Na mesma semana, um documento publicado pelo USTR (escritório de representação comercial da Casa Branca) criticou o Pix, barreiras comerciais brasileiras e questionou projetos de lei que buscam regulamentar redes sociais.

Confidencialidade

Sem a perspectiva ainda de um encontro na Casa Branca entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, iniciativas passaram a ganhar força para tentar desmontar a narrativa bolsonarista. A esperança é de que, com informações, uma ala mais moderada tanto de republicanos como da oposição democrata ajude a conter eventuais ações do presidente dos EUA, influenciado por sua base mais radical.

Em um dos documentos que chegou aos democratas, por exemplo, o alerta é feito sobre o relacionamento entre Flávio e a ala mais radical da administração Trump.

Os dossiês denunciam as manobras do bolsonarismo para atrair o governo norte-americano para a eleição brasileira e alertam sobre os riscos que isso pode gerar para a relação entre os dois países. Em um dos documentos, observadores sugerem que os democratas monitorem a ação de Trump no Brasil para evitar que haja uma ingerência externa.

Os contatos estão sendo feitos em sigilo absoluto, com a ordem de se preservar quais parlamentares americanos estão recebendo as informações e gestões. O objetivo é o de evitar que membros da Casa Branca ou que o clã Bolsonaro possam agir contra a gestão desses interlocutores.

Em 2025, no auge da crise entre Trump e Lula, missões públicas que tentaram dialogar com membros e enviados do governo Trump se depararam com uma ação coordenada por parte dos bolsonaristas para minar o diálogo. A opção, agora, é agir em sigilo.

Entre as sugestões, os democratas foram alertados sobre a instrumentalização política que o clã Bolsonaro poderia fazer diante da classificação do PCC e do Comando Vermelho como “entidades terroristas” por parte dos EUA. Um dos pontos levantados é que isso prejudicaria as parcerias existentes no combate ao crime organizado ou aumentaria as tensões desnecessariamente entre os dois países.

A ação também envolve setores da indústria e agricultura. O governo Trump deu até o próximo dia 15 de abril para que qualquer entidade submeta suas considerações diante das investigações abertas pela Casa Branca contra o Brasil e vários outros países por conta da existência de trabalho forçado em suas economias. Os EUA ameaçam impor novas tarifas de importação caso considerem que essas práticas favorecem de forma injusta os produtores brasileiros.

O ICL Notícias apurou que algumas associações de classe no Brasil consideram submeter suas avaliações. Além da ação da indústria e do agronegócio, uma audiência pública nos EUA começará a partir do dia 28 de abril com todos os envolvidos.

Ação internacional contra ingerência

A operação também envolve o governo brasileiro. Em meados de abril, Lula irá para a Espanha para uma reunião de líderes progressistas. Parte da iniciativa tem como objetivo coordenar posições contra eventuais ingerências externas em processos eleitorais pelo mundo.

A mobilização progressista ainda contará com a presença do colombiano Gustavo Petro, Stefan Löfven, presidente do Partido Socialista Europeu, Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, Yamandú Orsi, presidente do Uruguai, Lars Klingbeil, vice-chanceler alemão, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e pela vice-presidente da Comissão Europeia, Teresa Ribera, além do presidente do governo da Espanha, Pedro Sanchez.

Não se descarta ainda que a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez também participe.

Em paralelo, cerca de dez entidades da sociedade civil brasileira — entre elas o Instituto Vladimir Herzog, o MST e a Coalizão Negra — também estarão presentes para reuniões destinadas a coordenar posições contra o movimento autoritário que ganha força em diversos países e sua ingerência em processos eleitorais, entre eles o Brasil. A ideia é a de fortalecer a articulação internacional contra movimentos antidemocráticos.

[0] Comentários | Deixe seu comentário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.