5 de abril de 2026

Lula não é o PT: Um partido entre a Glória do Passado e o Desafio de um Brasil Moderno

Autor: Daniel Menezes

Por Ricardo Valentim

Professor Titular da UFRN

O Partido dos Trabalhadores ocupa hoje a posição de peça mais influente no tabuleiro democrático brasileiro, mas sua trajetória é um mosaico de sincretismos ideológicos e contradições profundas. Embora tenha nascido nos centros intelectuais de São Paulo, o PT só encontrou sua verdadeira alma quando a voz de um operário ecoou mais forte que as teses acadêmicas. Não foi a erudição dos intelectuais que conectou o partido ao Brasil profundo; foi a vivência do trabalhador, revelando uma lição ainda não aprendida pelas elites pensantes da legenda: o intelectual, muitas vezes, fala apenas para sua própria bolha, ignorando que a sociedade não busca teorias complexas, mas identificação e soluções reais. O povo não deseja ser estudado por castas; ele quer ser traduzido por quem conhece o chão da fábrica e a realidade das ruas.

Neste terceiro mandato, a distinção entre o "Lulismo" e o "Petismo" tornou-se um abismo evidente. Enquanto Lula demonstra uma capacidade instintiva de integrar o mercado e compor com os diferentes, o PT parece recuar para uma endogenia paralisante, onde o conceito de "companheiro" restringe o diálogo apenas aos iguais. Lula não é apenas o PT; ele é um partido singular, um líder pragmático que pensa fora da caixa e compreende a arte de cooperar com os opostos. O PT, por sua vez, tem sido apenas um reflexo dessa liderança, mas, como todo reflexo é uma sombra, o partido carece da luz própria e da substância necessária para caminhar sem o seu criador.

Essa falta de autonomia estratégica reflete-se diretamente nos grandes projetos do país. Apesar de indicadores econômicos que trazem certo alívio, o Brasil ainda patina em pilares vitais como educação, ciência e tecnologia, perdendo terreno para nações como o Vietnã, que transformaram o conhecimento em motor de riqueza. É preciso reconhecer o esforço do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação na atual gestão, que tenta resgatar a dignidade científica nacional, mas a realidade é implacável: uma Ministra sozinha não possui o cajado para, isoladamente, transformar ciência em desenvolvimento socioeconômico se o governo não tratar a tecnologia como uma agenda de Estado, e não apenas como uma peça de negociação política. Sem esse suporte estrutural, resta à gestão a impossível tarefa de tentar transformar água em vinho.

Da mesma forma que as reformas tributária e administrativa são pautas relevantes para a nação, a Ciência, a Tecnologia e a Inovação são pilares fundamentais para o desenvolvimento soberano. Crescer economicamente sem gerar desenvolvimento real é ineficiente a longo prazo, pois mantém o país estagnado na armadilha da renda baixa e média, incapaz de dar o salto qualitativo que a sociedade exige.

Para sobreviver ao escrutínio do tempo, o PT precisa romper sua bolha narrativa e abandonar definitivamente o retrovisor. O desenvolvimento real de uma nação exige uma infraestrutura de futuro que vá muito além do assistencialismo necessário. O risco de uma derrota em 2026 não reside necessariamente na força de seus opositores, mas na própria incapacidade do partido de entender que o Brasil mudou. Se a legenda não sair do passado para projetar um país que não apenas cresça, mas que se desenvolva com inovação e inteligência, poderá descobrir que a conexão com a sociedade se quebrou — e que as sombras, por mais extensas que sejam, não sobrevivem sem o brilho de quem as projeta.

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