4 de março de 2026
Maior doador de Tarcísio e Bolsonaro: quem é o pastor da Lagoinha preso por integrar milícia de Vorcaro
Autor: Daniel Menezes
Do ICL
Por Cleber Lourenço
O pastor e empresário Fabiano Campos Zettel, que figurou entre os maiores doadores pessoa física das campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi preso na nova fase da Operação Compliance Zero — investigação que mira o banqueiro Daniel Vorcaro e uma estrutura paralela utilizada para proteger interesses do grupo empresarial ligado ao Banco Master.
Zettel não aparece na investigação como personagem periférico. A decisão do Supremo Tribunal Federal que autorizou medidas da Polícia Federal descreve o pastor como integrante da engrenagem operacional responsável por viabilizar financeiramente atividades relacionadas aos interesses de Vorcaro.
O documento afirma que Zettel manteve “atuação direta e reiterada” em apoio às atividades do banqueiro, participando da estrutura responsável pela execução e viabilização financeira de iniciativas do grupo investigado.
Segundo a decisão, a investigação identificou a atuação do pastor na intermediação e operacionalização de pagamentos. Os elementos reunidos pela Polícia Federal indicam que ele participava da definição de mecanismos de transferência de recursos e da elaboração de instrumentos contratuais utilizados para justificar repasses financeiros.
A decisão menciona ainda a participação de Zettel na elaboração de uma proposta de contratação considerada simulada pelos investigadores. O documento afirma que a proposta envolvia a formalização de vínculo contratual fictício por meio da empresa Varajo Consultoria Empresarial Sociedade Unipessoal Ltda., estrutura que teria sido utilizada para justificar pagamentos relacionados ao grupo.
Outro trecho aponta que Zettel mantinha comunicação direta com Daniel Vorcaro sobre a condução de pagamentos e tratativas financeiras envolvendo terceiros. A investigação descreve que ele participava da organização e acompanhamento de fluxos financeiros associados às iniciativas do grupo.
“A Turma”
O documento também descreve a existência de um grupo informal identificado nas mensagens como “A Turma”. Segundo a investigação, essa estrutura era utilizada para realizar atividades de monitoramento e coleta de informações de interesse do grupo investigado, além de ações de coação e intimidação contra pessoas consideradas prejudiciais aos interesses da organização.
De acordo com a decisão judicial, há indícios de que pagamentos destinados a integrantes desse grupo eram operacionalizados por meio de Fabiano Zettel. A decisão reproduz mensagens que indicariam a existência de um pagamento mensal de um milhão de reais feito por Vorcaro e distribuído entre integrantes da estrutura.
Em uma das conversas citadas no documento, um dos interlocutores afirma: “O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando”. Em outra mensagem mencionada pela investigação, o participante afirma que Vorcaro enviava o valor mensal e que o dinheiro era posteriormente dividido entre integrantes do grupo.
Quem é Daniel Vorcaro
Daniel Bueno Vorcaro é o empresário que construiu e controlou o Banco Master, instituição financeira que ganhou relevância no mercado brasileiro ao longo da última década por meio de operações de aquisição de ativos problemáticos e estratégias agressivas de crédito. O banco cresceu rapidamente e passou a operar com um modelo de negócios que chamou atenção do mercado financeiro e também de órgãos de investigação.
Nos últimos anos, o nome de Vorcaro passou a aparecer em diferentes apurações envolvendo suspeitas de crimes financeiros, lavagem de dinheiro e uso de estruturas paralelas para coleta de informações sobre concorrentes e críticos do grupo empresarial.
A Operação Compliance Zero investiga justamente a existência de uma rede organizada que teria atuado para proteger interesses ligados ao Banco Master. Segundo a Polícia Federal, essa estrutura incluía monitoramento de pessoas, obtenção de informações sensíveis e uso de intermediários para movimentar recursos e estruturar pagamentos.
É nesse contexto que aparece o nome de Fabiano Zettel, descrito na investigação como responsável por operacionalizar parte desses fluxos financeiros.
Além da relação empresarial, Zettel também possui ligação familiar direta com Vorcaro: ele é cunhado do banqueiro investigado.
A relação de Zettel com a Igreja da Lagoinha
Além da ligação familiar com Vorcaro, Fabiano Zettel também possui conexões com o universo da Igreja Batista da Lagoinha, uma das maiores redes evangélicas do país e que ganhou projeção nacional nas últimas décadas com a expansão de templos, projetos midiáticos e atuação política de lideranças religiosas.
A Lagoinha, fundada em Belo Horizonte, tornou-se uma das igrejas evangélicas mais influentes do Brasil e passou a reunir um ecossistema que inclui projetos de mídia, eventos religiosos, negócios e iniciativas financeiras voltadas ao público evangélico.
É dentro desse ambiente que surge o chamado Clava Forte Bank, fintech que passou a oferecer serviços financeiros voltados principalmente para fiéis e frequentadores do meio evangélico.
O projeto foi associado ao entorno da Lagoinha e ganhou visibilidade nas redes sociais e em eventos ligados à igreja. A proposta era oferecer serviços como contas digitais, cartões e soluções de pagamento voltadas ao público religioso.
Apesar do nome, o Clava Forte não é um banco autorizado pelo Banco Central. A estrutura operava como correspondente bancário, modelo que permite oferecer serviços financeiros por meio da infraestrutura de instituições autorizadas.
O surgimento da fintech chamou atenção de parlamentares e passou a ser mencionado em discussões políticas envolvendo o escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias do INSS.
Clava Forte e a CPMI do INSS
Na CPMI que investiga o esquema de descontos irregulares em benefícios previdenciários, parlamentares passaram a mirar estruturas financeiras associadas ao ecossistema da Lagoinha.
Entre os alvos de questionamentos na comissão aparece o Clava Forte Bank e também pessoas ligadas ao seu entorno empresarial.
Deputados apresentaram requerimentos pedindo a quebra de sigilo bancário e fiscal de Fabiano Zettel e de empresas associadas a estruturas financeiras mencionadas no debate da comissão.
Segundo os pedidos apresentados, o objetivo é verificar possíveis fluxos financeiros relacionados a entidades que operavam descontos em benefícios de aposentados.
Até o momento, essas suspeitas fazem parte de apurações em andamento e ainda dependem da análise de relatórios de inteligência financeira e de quebras de sigilo aprovadas pela comissão.
Investigações em andamento
Enquanto a investigação sobre o esquema financeiro avança, a Polícia Federal tenta esclarecer a extensão da estrutura descrita na decisão do STF.
Os investigadores apuram se a rede operava como uma organização destinada a proteger interesses empresariais do grupo ligado ao Banco Master por meio de monitoramento de pessoas, coleta de informações sensíveis e uso de intermediários para viabilizar pagamentos e contratos utilizados para justificar transferências financeiras.
A prisão de Fabiano Zettel marca um novo capítulo na investigação e reforça a linha adotada pela Polícia Federal de aprofundar o rastreamento das estruturas financeiras e operacionais que orbitavam o grupo empresarial ligado a Daniel Vorcaro.
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