3 de janeiro de 2026
Editorial O Globo - Tirania de Maduro não justifica ataque de Trump
Autor: Daniel Menezes
O Globo - Não faltariam motivos para os venezuelanos celebrarem a queda do ditador Nicolás Maduro. Ele consolidou o regime bolivariano como autocracia corrupta, subjugou Legislativo e Judiciário, sufocou a imprensa profissional, fraudou as últimas eleições para se manter no poder, foi incapaz de recuperar o PIB venezuelano da queda de mais de 70% durante o chavismo (estima-se que mais de metade da população viva em pobreza extrema) e é com frequência citado como violador contumaz de direitos humanos — a última missão da ONU constatou em dezembro um “padrão de uma década de mortes, detenções arbitrárias, tortura e violência sexual” dirigidas contra opositores do regime. Nada disso, contudo, pode servir de justificativa à incursão dos Estados Unidos que o depôs. Trocar Maduro por um futuro incerto não trará alívio ao povo venezuelano.
Depois de promover uma campanha militar que deslocou 15 mil soldados e deixou pelo menos 42 mortos em 11 ataques nas águas caribenhas desde setembro — alegando combater o tráfico de drogas —, o presidente americano, Donald Trump, anunciou ter capturado Maduro numa “investida de larga escala contra a Venezuela”, que atingiu portos, aeroportos e instalações militares. De acordo com a Casa Branca, Maduro e sua mulher foram transferidos aos Estados Unidos para ser julgados sob acusações ligadas ao narcoterrorismo.
Por mais que houvesse motivos para depô-lo, a ação violenta em solo estrangeiro contra um governante local despertou reação instantânea — e justificada — de repúdio na comunidade internacional democrática. “Os bombardeios em território venezuelano e a captura de seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável”, afirmou em comunicado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.” Posição semelhante foi manifestada pelos governos da Colômbia e do Uruguai. Lula ainda afirmou que a ação “lembra os piores momentos da interferência” externa na América Latina e exortou ao “diálogo” e à “cooperação”.
Em contraste, líderes latino-americanos da ultradireita nacionalista, afinados com Trump, celebraram o ataque americano. O presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, afirmou que foi uma boa notícia para a América Latina. O governo paraguaio classificou Maduro como “líder de uma organização criminosa”. O argentino Javier Milei o definiu como “maior inimigo da liberdade no continente”. Na Europa, contudo, a reação foi menos virulenta. A líder ultradireitista francesa Marine Le Pen, ainda que criticando Maduro, condenou o ataque: “A soberania dos Estados nunca é negociável, qualquer que seja seu tamanho, qualquer que seja sua potência, qualquer que seja seu continente. Ela é inviolável e sagrada”. Oficialmente, a União Europeia reafirmou não reconhecer a legitimidade do regime de Maduro, mas defendeu uma “transição pacífica e democrática”. “Qualquer solução deverá respeitar a lei internacional e a Carta das Nações Unidas”, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen.
O diálogo de bastidores entre americanos e Maduro estava em curso havia meses — e a esta altura é ocioso especular sobre os motivos do fracasso. Com a resposta militar, Trump confirmou na prática os princípios de seu ideário geopolítico que, a exemplo da Doutrina Monroe do século XIX, encara a América Latina como prioridade e alvo legítimo. Por mais que afirme combater o narcoterrorismo, é inegável o interesse americano nos recursos naturais venezuelanos, em especial as reservas de petróleo. Trump alega, com base numa leitura enviesada dos fatos, que tem como objetivo recuperar o que os venezuelanos “roubaram”. A Venezuela nacionalizou sua indústria do petróleo em 1976, compensando as empresas americanas expropriadas. Nos anos 1990, reabriu o setor à participação do capital estrangeiro, mas o regime bolivariano mais uma vez decidiu nacionalizar tudo, e algumas empresas americanas se queixam de não terem sido até hoje devidamente compensadas. É isso que Trump chama de “roubo”.
A incursão americana também abriu um precedente perigoso ao estimular pretensões imperiais de outras nações sobre territórios soberanos. É caso da Rússia, que invadiu a Ucrânia com base em argumentos falaciosos. Poderá, no futuro, ser o caso da China, que até hoje considera Taiwan uma província rebelde e jamais escondeu a intenção de reintegrá-la a seu território. Para Trump, tudo isso pode ser irrelevante. Para o resto do mundo, não é.
Quanto aos venezuelanos, seu destino é incerto. Trump afirmou que os Estados Unidos “governarão o país até uma transição segura, criteriosa e adequada”. Questionado sobre detalhes, não descartou o envio de soldados, embora não haja tropas americanas em solo venezuelano e, mesmo sem Maduro, chavistas mantivessem controle sobre instituições e infraestrutura. Trump disse contar com apoio da vice-presidente Delcy Rodríguez, que afirmou “supor ser agora presidente”. Num pronunciamento em rede nacional, contudo, Delcy o desmentiu. Declarou que Maduro continuava a ser o único presidente e conclamou o povo venezuelano a resistir à investida americana. A líder da oposição e vencedora do Nobel da Paz, María Corina Machado, celebrou a queda do ditador e disse que o poder deveria ser assumido pelo vencedor legítimo das eleições de julho, o diplomata Edmundo González. Trump descartou, porém, qualquer liderança de María Corina num futuro governo. “Seria difícil, ela não conta com o apoio nem com o respeito de todo o país”, afirmou.
Na realidade, ainda não se sabe o que farão as Forças Armadas, até agora predominantemente leais ao regime bolivariano, embora eivadas de dissidências. O ideal seria o país resgatar a democracia pela via pacífica, sem a presença americana. Cabe à comunidade internacional protestar contra a agressão a soberania venezuelana. A Venezuela já foi exemplo de estabilidade política, e nada impede que volte a ser. Precisaria, para isso, superar o estigma do chavismo. Infelizmente, o ataque de Trump nada faz por isso.
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