12 de março de 2026

No Brasil o Golpe tem DNA: Da Difamação de Frei Beto ao Atual Sequestro das Instituições

Autor: Daniel Menezes

Por Ricardo Valentim

Professor Associado da UFRN

 

A história brasileira não se repete por acaso; ela opera sob um método de erosão controlada e fabricação de mitos. Ao abrirmos a biografia de Frei Beto, deparamo-nos com manchetes de 1969 que parecem o rascunho do ecossistema de desinformação atual. "Procurado o frade mineiro do terror" não era notícia; era uma sentença de morte civil proferida por um consórcio entre Estado e mídia, muito antes de qualquer prova ou do trânsito em julgado. Essa lição do passado é clara: quando o poder rotula alguém sem o devido processo legal, o objetivo não é a justiça, mas a aniquilação moral que autoriza a barbárie.

 

Essa estratégia de usar a desinformação como arma de guerra atravessa décadas. O Brasil possui um histórico cíclico de heróis construídos sobre o lodo da manipulação. Vimos isso com Fernando Collor, o "caçador de marajás", um herói e uma fraude erguida pela mesma mão mediática que o descartou quando a conveniência mudou. Repetimos o erro com Sérgio Moro, o "herói nacional" que, sob o manto da moralidade, criou um espetáculo contra reputações e instituições. Em ambos os casos, o que sobrou foi uma imprensa que desinformou por sede de poder e uma sociedade refém de justiceiros com interesses ocultos.

 

Hoje, o alvo da vez é o Supremo Tribunal Federal (STF). O ataque sistemático contra a Corte é a manifestação de um DNA golpista que nunca foi plenamente sepultado em 1964. No Congresso, a ala bolsonarista que tentou tomar o país em janeiro de 2023 clama por uma liberdade seletiva. É uma retórica vazia, pois esses mesmos grupos não abrem mão das emendas secretas e do nebuloso "orçamento PIX". Eles preferem a ausência de luz, onde os interesses privados prevalecem sobre o bem comum.

 

Enquanto o Judiciário concentra todos os ataques, os verdadeiros escândalos de corrupção sistêmica e os interesses de castas elitistas passam ilesos pelo escrutínio da lei. O caso do Banco Master e o silêncio de grande parte da imprensa revelam onde mora o perigo real: na conivência daqueles que deveriam fiscalizar o poder, mas preferem servir a ele. Por trás de discursos magnânimos, quase sempre existe um projeto canalha.

 

A democracia exige vigilância contra métodos, não apenas contra pessoas. Se o país permitir que a desinformação fabrique heróis e destrua instituições, continuaremos como uma nação que flerta com o caos para sustentar privilégios ocultos. O Brasil precisa aprender com sua história para não ser condenado a repeti-la como a trágica farsa que condenou Frei Beto. O país não está livre do autoritarismo e do estado policialesco; o DNA apenas mudou sua estética, porém segue a mesma sequência genética do passado.

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