15 de fevereiro de 2026
O Brasil e o Complexo de Geni: A Democracia no Alvo das Pedras
Autor: Daniel Menezes
Por Ricardo Valentim
Professor Associado da UFRN
A obra de Chico Buarque sempre foi um espelho incômodo da alma brasileira, mas poucas composições soam tão oportunas hoje quanto a "Geni e o Zepelim". Na letra, Geni é a figura marginalizada, o alvo preferido dos insultos da "sociedade de bem", até que um invasor ameaça a cidade. Diante do medo, a burguesia local descobre a utilidade de Geni: ela é a única capaz de salvar a todos. Aclamada como heroína por uma noite, ela cumpre seu papel e livra a nação do desastre. No entanto, assim que o perigo se dissipa, o coro volta ao seu estado natural: "Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni!".
O Supremo Tribunal Federal (STF) vive hoje o seu "momento Geni". Ontem, a instituição era o bastião inquestionável que salvou o Brasil de um golpe de Estado e serviu de contrapeso ao autoritarismo que tentava se instalar. Hoje, após cumprir a função de preservar a democracia, o Tribunal volta a ser o alvo de pedradas institucionais. O que vemos não é uma crítica jurídica saudável, mas um processo puramente midiático, leviano e desonesto.
Estamos mergulhados em uma "infodemia" fabricada por setores da imprensa que, movidos pelos interesses ocultos da Faria Lima, tentam colar a pecha da corrupção ao STF. É uma estratégia perversa: enquanto se tenta deslegitimar a Suprema Corte, ignora-se o evidente aparelhamento de outras instituições, como a Polícia Federal, que muitas vezes atua ao sabor das conveniências de ocasião.
O Brasil parece não ter abandonado o flerte com a ditadura; ele apenas aprendeu a gourmetizar o autoritarismo através do Lawfare. Essa ferramenta, que tem em Sérgio Moro seu principal artífice e entusiasta, transforma o sistema judiciário em arma de guerra política para derrubar governos e manipular o cenário eleitoral. É estarrecedor observar que parte da esquerda parece sofrer de amnésia coletiva, esquecendo-se do que foi feito contra o Presidente Lula através desse exato mecanismo de destruição de reputações.
O pano de fundo desse ataque coordenado é a tentativa de ocultar os avanços reais do país. Enquanto o Brasil vive o pleno emprego e experimenta um novo ciclo de desenvolvimento social e econômico, as elites preferem pautar o debate público com inimigos imaginários e escândalos requentados. O chamado "Caso Master" deve, por óbvio, ser investigado com rigor, mas não pode ser usado como biombo para desestabilizar as instituições que garantem a nossa ordem democrática.
Geni serviu ao povo porque a burguesia não tinha coragem de lutar sua própria luta. O STF protegeu a Constituição quando o silêncio era a regra em outros setores. Tratar a Suprema Corte como uma prostituta institucional — útil para a salvação, mas descartável para a manutenção do poder das elites — é o caminho mais curto para o retrocesso. O Brasil precisa decidir se quer ser uma República de fatos ou uma cidade de pedras, onde a gratidão dura apenas o tempo necessário para que os poderosos se sintam seguros novamente.
[0] Comentários | Deixe seu comentário.