14 de fevereiro de 2026
“Prefeito inimputável”: quando não agir e não aparecer viram virtude na mídia estabelecida
Autor: Daniel Menezes
Parte da mídia estabelecida em Natal parece empenhada em consolidar uma figura curiosa: a do prefeito inimputável, aquele que não pode ser cobrado, que não é responsabilizado por crises e cuja ausência é tratada como inteligência estratégica. Não sair do gabinete vira sinal de força. Não visitar áreas alagadas é descrito como postura institucional. Não convocar reuniões públicas diante de problemas concretos é interpretado como serenidade administrativa. No fim, constrói-se a imagem de um “não-prefeito” elogiado exatamente por não aparecer, por não liderar, por não assumir protagonismo nos momentos mais delicados. Quando surge, muitas vezes o faz por meio de vídeos produzidos com recursos tecnológicos - Inteligência Artificial - que distanciam ainda mais a figura pública da realidade concreta enfrentada pela população.
O contraste fica evidente quando se observa a cobertura dedicada a outros atores políticos. A cobrança por soluções para os alagamentos recai sobre a oposição, sobre parlamentares como Natália Bonavides ou sobre blogs independentes que denunciam problemas estruturais. A eles se exige ação, presença, explicação. Já ao chefe do Executivo municipal, atribui-se quase uma blindagem narrativa: a ausência vira método, o silêncio vira virtude. A pergunta que fica é: se não há disposição para liderar enfrentamentos administrativos em momentos críticos, por que disputar o cargo?
Basta um exercício hipotético para revelar o desequilíbrio: troque-se o nome do atual prefeito pelo de Fátima Bezerra em cenário semelhante e dificilmente a leitura seria complacente. A diferença de tratamento expõe mais sobre o comportamento de quem narra do que sobre quem governa. Ao criar o “prefeito inimputável”, parte da mídia talvez esteja forjando uma ficção conveniente no presente, mas que pode se tornar insustentável quando a realidade insistir em cobrar respostas.
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