27 de janeiro de 2026

Master comprou R$ 6,7 bilhões de carteiras podres, não pagou nada e vendeu por R$ 12,2 bilhões ao BRB, banco do DF após operação defendida pelo governador Ibaneis

Autor: Daniel Menezes

Metrópoles - O depoimento de Daniel Vorcaro à Polícia Federal (PF) revela quão esdrúxula foi a operação entre o Banco Master e o BRB envolvendo carteiras da Tirreno. Ao responder às perguntas dos investigadores, Vorcaro relata que negociou a compra dos papéis por R$ 6,7 bilhões e, quase imediatamente, os vendeu por R$ 12,2 bilhões ao BRB. Apesar de o BRB ter pagado o valor em dinheiro, o Master não repassou nada.

Ao responder aos investigadores sobre os motivos de ter negociado com a Tirreno, uma empresa recém-inaugurada e que não tinha sequer registros de movimentação de dinheiro, Vorcaro fala de outra companhia, que estava fora do radar: a Cartos. “Na verdade, [o negócio] estava se pautando por outra empresa, que era a Cartos, que tinha expertise”, declarou o banqueiro.

Ou seja, Vorcaro alega que confiou na Tirreno e prometeu pagar R$ 6,7 bilhões pelas carteiras, porque os papéis eram oriundos da Cartos, que, segundo o banqueiro, tinha 25 anos de experiência no mercado. A Cartos, por outro lado, como revela a delegada da PF, também durante a oitiva, negou ter cedido créditos à Tirreno. Além disso, não haveria registros de pagamentos feitos pelo Master à Tirreno, mesmo após o Master ter recebido do BRB R$ 12,2 bilhões em dinheiro.

“A Tirreno, criada em dezembro, e iniciando as operações com o Banco Master, operações muito volumosas, em janeiro, em tese com créditos da Cartos. Porém, a Cartos não se reconhece como originadora dos créditos”, aponta a delegada. Depois, Vorcaro reconhece que não pagou nada dos R$ 6,7 bilhões para a Tirreno.

A delegada questionou: “O Banco Master efetivamente pagou a Tirreno pelas carteiras de crédito adquiridas no valor de R$ 6,7 bilhões?”. Vorcaro responde: “Não, a gente não realizou a transação final, a gente fez um acordo. Uma promessa de transação que acabou não se concretizando”.

 

Em outro trecho, Vorcaro diz que o dinheiro pago pelo BRB “ficou em uma conta do Master”. “A gente não liberou nenhum recurso para a Tirreno, o recurso estava dentro de casa, do Banco Master”, afirmou.

Após diversas respostas evasivas, a delegada tenta descrever a operação e questiona: “Considerando que a Cartos nega ter vendido carteiras à Tirreno, a Tirreno nunca movimentou dinheiro, portanto, nunca pagou à Cartos, o Master nunca pagou efetivamente à Tirreno. De onde vieram as carteiras de crédito que o Banco Master vendeu ao BRB por R$ 12,2 bilhões?”. Vorcaro respondeu: “Eu não tenho essa informação”.

Negociação com o BRB

No depoimento, Vorcaro admite que as carteiras adquiridas da Tirreno foram vendidas em tempo recorde ao BRB, poucos dias após a criação da empresa. A delegada, então, questiona: “Como foi que o senhor negociou com o BRB a cessão dessas carteiras quase imediata para o BRB?”.

 

Vorcaro, então, responde que já conhecia e fazia negócios com o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e diz que o BRB não dava lucro. “Eu já o conhecia, a gente já vinha fazendo o negócio há quase um ano”, disse. E continua: “O BRB, quando a gente se conhece ali em 2024, era um banco que não estava dando resultado, era coerente com o banco de mercado e, depois que a gente começa a fazer negócio, ele começa a dar resultado”.

Depois, o delegado da PF afirma que o BRB estava “flertando bastante com o problema de liquidez”. “Eu conhecia o índice de liquidez do BRB, em termos de Basileia, era muito próximo do prudencial”, disse antes de questionar Vorcaro se ele também tinha ciência da situação do banco que estaria comprando o Master. “Para te falar a verdade, não”, disse Vorcaro.

Falta de documentação

Em outro trecho, Vorcaro diz ter comprado as carteiras da Tirreno sem exame prévio da consistência dos papéis. “Na realidade, eu tratei dos contratos macro da transação”, afirmou. “A empresa teria tempo para poder entregar toda a documentação pertinente às operações. E nós nos resguardamos de todas as cláusulas e questões para algum vício documental.”

O tempo, no entanto, teria passado sem que a Tirreno apresentasse a documentação que comprovasse a existência dos ativos. Vorcaro reconheceu: “A nossa primeira tentativa era receber a documentação da carteira, que, quando a gente viu que poderia demorar ou que não estava a contento do que era o banco, a gente executou a cláusula de cartilha para poder desfazer a operação”. A medida teria sido adotada em abril de 2025.

A delegada da PF, então, aponta que Vorcaro continuou comprando novas carteiras da Tirreno mesmo assim. “E aí, mesmo os senhores tendo utilizado essa cláusula de cartilha, a gente percebe que continuaram as negociações”, afirmou. Depois, ela apontou dados de um relatório que indicam que, após o mês de abril, Vorcaro teria fechado outros 10 contratos com a Tirreno, chegando ao montante de R$ 8 bilhões.

Vorcaro responde: “Sim, doutora. Entendo que a maneira como foi colocada aqui parece que existiu uma grande fraude, um grande problema. Só que não é o fato”. E continua: “Naquele momento, em abril, a gente estava cobrando e pressionando um parceiro para trazer documentação no âmbito usual de negócios. O Banco Central me fez uma comunicação em março, 17 de março, pedindo para que a gente explicasse quais eram esses novos originadores e o que a gente já tinha feito. E foi o que a gente entregou”.

BRB sabia sobre a inconsistência das carteiras da Tirreno, mas seguiu comprando papéis da empresa

Então, na mesma resposta, Vorcaro revela, além da atuação e ciência do BC, que o BRB também sabia da inconsistência dos papéis desde maio de 2025. “No momento em que a gente entendeu, eu acredito que foi ali em maio, que a gente entendeu com o BRB que realmente estavam faltando documentos e a gente não conseguia essa documentação completa por parte da Tirreno, aí, sim, a gente assina um contrato naquele momento para poder fazer o desfazimento.”

Os negócios com o BRB, no entanto, continuam, conforme o depoimento de Vorcaro. Ele admite à PF que, mesmo após o BRB ter se dado conta de que havia problemas com as carteiras vendidas, mais carteiras seguiram sendo comercializadas entre os dois bancos.

Além disso, o banqueiro afirma que o Master não era fiador da liquidez das carteiras e que a instituição só teria alguma responsabilidade em caso de vícios documentais. “Esse tipo de negócio no contrato a gente responde por vícios documentais, a gente não corre o risco do crédito”, afirmou.

Troca de ativos

Outro momento do depoimento que chama a atenção é quando Vorcaro admite que o dinheiro pago pelo BRB nunca foi devolvido, mesmo após o acionamento da cláusula que teria desfeito o negócio. A delegada questiona: “A Tirreno devolveu o dinheiro para o senhor ou para o BRB?”. “Não, mais para frente a gente assina contratos e inicia-se a devolução para o BRB e a recompra das carteiras do BRB”. Ou seja, é quando começa a substituição dos papéis.

Vorcaro diz, também, que parte da devolução teria sido acertada diretamente pelo BRB com a Tirreno, apesar de, até então, o BRB não ter feito qualquer negócio direto com a empresa. “Foi feito um contrato, se não me engano, na época do próprio BRB direto com a Tirreno e de outra parte com o Master. E aí a gente acabou acelerando e no final a gente tinha feito a troca completa, ficou faltando formalmente a transferência de, se não me engano, 1,4 bilhão de ativos”, afirmou.

Ainda no depoimento, Vorcaro admite que as carteiras da Tirreno compradas pelo BRB, no valor total de R$ 12,2 bilhões, deveriam ser de créditos consignados, de alta liquidez. Mas, após a constatação da suposta fraude, os papéis foram substituídos por ativos de menor liquidez.

O delegado tenta entender o que Vorcaro afirmou e questiona: “Inicialmente, por esses R$ 12 bilhões, [o Master] cedia créditos com uma liquidez maior, que eram os consignados. Esses créditos, depois, o senhor diz em algum momento que alguma parte foi devolvida, inclusive o dinheiro para o BRB, mas o BRB depois usou esse mesmo recurso para comprar outros créditos. Esses outros ativos com liquidez totalmente diferente dos primeiros que o senhor negociou com o BRB. Estou correto?”. Vorcaro responde: “Correto. Outra liquidez e outro resultado também”.

Parte dessa troca envolveu recursos provenientes das carteiras do Will Bank — instituição do grupo Master que foi liquidada pelo Banco Central no último dia 21 de janeiro. Vorcaro revela, no entanto, que o BRB nunca teve acesso aos recursos que seriam provenientes do Will, já que o contrato previa que os devedores das carteiras seguiram pagando seus débitos ao Will, que os repassaria ao Master – este finalmente os repassaria ao BRB, o que nunca aconteceu.

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