26 de janeiro de 2026
Entre o escândalo mostrado pelo Gaeco em Natal, o “trem da alegria” da Assembleia e a falta de desfecho judicial: a hipocrisia de Álvaro Dias ao aderir agora aos ataques ao Judiciário
Autor: Daniel Menezes
Ao gravar vídeo em apoio à caminhada de Nikolas Ferreira, o ex-prefeito Álvaro Dias faz um gesto político inequívoco: acena ao bolsonarismo e à retórica da “liberdade” frequentemente usada como crítica indireta às instituições. Não é segredo que esse discurso, reiterado por Nikolas ao final do ato, costuma desaguar em ataques ao Supremo Tribunal Federal e a ministros da Corte, como Alexandre de Moraes. O problema não está no alinhamento ideológico em si — legítimo no jogo democrático —, mas na seletividade do argumento quando aplicado à própria trajetória.
Em termos objetivos, Álvaro Dias nunca foi alvo de decisão judicial que o tenha constrangido pessoalmente. Não há registro público de condenação, punição ou medida cautelar contra si que sustente a narrativa de perseguição institucional agora evocada. Isso não é opinião: é constatação verificável. Se existisse uma “caça” generalizada a bolsonaristas, como sugere a retórica adotada, seria razoável esperar que o próprio Álvaro pudesse apontar um episódio concreto em que tenha sido atingido — o que não ocorreu.
Mais do que isso, há casos de amplo conhecimento público que seguem sem desfecho judicial e que, justamente por isso, enfraquecem a tese de hostilidade do Judiciário. O chamado “trem da alegria” da Assembleia Legislativa — com efetivações de parentes e questionamentos sobre publicidade dos atos, conforme noticiado pelo Agora RN — permanece sem responsabilização definida. De igual modo, investigações sobre o uso da máquina administrativa em Natal, apontadas pelo Gaeco como um escândalo de alcance generalizado no processo eleitoral, ainda não produziram sequer um desfecho inicial. Em ambos os cenários, não há decisão contra Álvaro Dias, um dos grandes investigados.
É legítimo criticar instituições. O que não se sustenta é fazê-lo omitindo que, na prática, o Judiciário tem sido — no mínimo — inerte ou cauteloso quando o assunto envolve o próprio crítico. Ao aderir a um discurso que acusa perseguição sem apresentar fatos pessoais que o confirmem, Álvaro Dias não apenas é injusto com o Judiciário; também constrói uma narrativa conveniente que ignora a própria biografia. No debate público sério, coerência importa — e, neste caso, ela faz falta.
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