24 de janeiro de 2026
Encontro com Ibaneis, relações políticas e falta de dinheiro no Master: o que Vorcaro disse à PF
Autor: Daniel Menezes
G1 - Em depoimento à Polícia Federal (PF) no fim de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro falou sobre a crise que culminou na liquidação do Master, em novembro, e disse que teve encontros com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), para discutir a venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB).
Ibaneis confirmou as reuniões com Vorcaro, mas negou ter tratado da venda do Master ao BRB: "Entrei mudo e saí calado". O negócio foi vetado pelo Banco Central (BC) em setembro.
A colunista Andréia Sadi, do g1, teve acesso à transcrição do depoimento, ocorrido em 30 de dezembro.
As falas de Vorcaro revelam a proximidade do banqueiro com figuras do poder e o uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como base para os negócios do Master.
O BC determinou a liquidação extrajudicial do Master por falta de liquidez e indícios de fraude na venda de carteiras de crédito ao BRB no valor de R$ 12,2 bilhões.
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Daniel Vorcaro, dono do Banco Master — Foto: Banco Master
FGC como modelo de negócio
Segundo informações que constam da transcrição, feita com ajuda de inteligência artificial, Vorcaro afirmou que a instituição teve problemas de falta de dinheiro e usava a solidez do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para fechar negócios.
O dono do Master afirmou que o banco atravessava uma crise de liquidez. Isso acontece quando uma pessoa, empresa ou banco não consegue honrar compromissos ou pagar dívidas.
O banqueiro afirmou à PF que, apesar das dificuldades, o Master cumpriu com todos os compromissos até 17 de novembro. A liquidação ocorreu um dia depois.
Segundo Vorcaro, os problemas foram provocados por mudanças em regras sobre o FGC. O dono do Master sugeriu que houve pressão de outros bancos, e não detalhou que mudanças seriam essas.
❗FGC é a sigla para Fundo Garantidor de Créditos. É uma espécie de "SOS" mantido com os recursos dos próprios bancos, que protege clientes em casos de intervenção ou quebra de uma instituição financeira. Em 30 anos, já foram 40 casos. O pagamento aos investidores do Banco Master deverá ser o maior da história do órgão: R$ 41 bilhões, divididos entre quem tinha aplicações de até R$ 250 mil.
Quando decretou a liquidação do Master, o BC apontou exatamente a falta de liquidez do banco, além de graves violações às normas do sistema financeiro.
Segundo Vorcaro, o plano de negócio do Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado, porque essa era a regra do jogo.
Ele disse que essas mudanças forçaram o Master a buscar outros meios de captar dinheiro no mercado. E que a partir daí o banco passou a ser alvo de uma campanha para destruir sua reputação.
Encontros com Ibaneis
Vorcaro confirmou ter mantido uma série de encontros com Ibaneis Rocha entre 2024 e 2025. Segundo o banqueiro, as reuniões ocorreram tanto em sua residência quanto na casa do governador, em Brasília.
O executivo afirmou que conversou com Ibaneis sobre a proposta de venda do Banco Master ao BRB, controlado pelo governo do DF.
O governador negou ter tratado disso. "Em momento algum, nas quatro vezes que o encontrei, tratei de assuntos relacionados ao BRB/Master", disse.
Ao longo de 2025, o BRB tentou comprar parte do Master, em uma operação com apoio do governo do DF, acionista controlador do banco público, mas posteriormente barrada pelo Banco Central.
O BRB injetou R$ 16,7 bilhões no Banco Master entre 2024 e 2025, e o Ministério Público vê indícios de gestão fraudulenta nessas transferências. Mais de R$ 12 bilhões foram usados para comprar carteiras de crédito que não pertenciam ao Master e se provaram sem lastro.
Relações políticas de Vorcaro
No depoimento, Vorcaro foi questionado sobre contatos com ministros, parlamentares, secretários de Estado ou dirigentes de órgãos públicos para tratar da venda do Master ao BRB e confirmou apenas os encontros com Ibaneis e autoridades do Banco Central.
O banqueiro chegou a declarar que, se tivesse tantas relações políticas quanto é sugerido por especulações, não estaria atualmente cumprindo prisão domiciliar com o uso de tornozeleira eletrônica, em referência às medidas cautelares impostas pela Justiça.
Ele disse que o BC acompanhou todo o processo de negociação sobre a venda ao BRB e negou que tenha tido ajuda de políticos.
Prisão no aeroporto
Sobre sua prisão no Aeroporto de Guarulhos (SP) na noite de 17 de novembro, o banqueiro disse que foi pego de supresa, negou que estivesse fugindo e disse que avisou o Banco Central sobre a viagem. Ele afirmou que já havia ido a Dubai recentemente para discutir a venda do Master ao grupo Fictor, em um negócio com a participação de investidores dos Emirados Árabes. Vorcaro afirmou que, nem nos seus piores pesadelos, imaginava ser preso. Ele ficou 12 dias na cadeia e agora está em prisão domiciliar.
Acareação com ex-presidente do BRB
Na acareação entre Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Bezerra, ex-presidente do BRB, realizada no mesmo dia após o depoimento, o dono do Master disse que a instituição não desembolsou nenhum real para adquirir uma carteira de créditos da empresa Tirreno, avaliada em R$ 6 bilhões.
A delegada questionou a transação, e Vorcaro afirmou que o valor ficou em uma conta reserva e que se tratava de um registro contábil, sem saída efetiva de dinheiro do caixa do banco. Após insistência da investigadora, Vorcaro disse que não realizou o pagamento.
A transcrição do que foi dito na acareação foi obtida pela colunista Julia Duailibi, do g1.
Vorcaro voltou a afirmar que o banco vivia uma crise de liquidez até 17 de novembro e disse que, após essa data, os problemas aumentaram em razão da liquidação do banco, decretada no dia seguinte.
Na mesma acareação, o presidente do BRB, ao ser questionado sobre por que não exerceu o direito de sacar os valores devidos pela Tirreno diante dos problemas, falou que sabia que o dinheiro não existia fisicamente.
Ele afirmou que os valores não existiam e que ele poderia causar uma quebra em sequência da Tirreno e do Banco Master.
A declaração sugere que o BRB manteve a operação para evitar a falência do parceiro, mesmo ciente dos graves problemas financeiros.
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