21 de janeiro de 2026

EDITORIAL - TRE-RN ou TREI-RN? Quando a Justiça Eleitoral parece ter CEP

Autor: Daniel Menezes

Morosidade em casos da capital, rigor no interior e silêncio institucional alimentam a percepção de dois pesos e duas medidas no Rio Grande do Norte.

Talvez o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte não precise, juridicamente, mudar de nome. Mas, politicamente, a ironia já corre solta: para parte da opinião pública, o TRE-RN parece operar, na prática, como um TREI-RN — Tribunal Regional Eleitoral do Interior.

A provocação nasce da observação dos fatos. Após a eleição de 2024 em Natal, processos eleitorais envolvendo figuras centrais da capital seguem sem conclusão há mais de um ano. No direito eleitoral, onde o tempo é elemento essencial para garantir efetividade às decisões, essa demora não é detalhe técnico — é fator político concreto.

Enquanto isso, quando os alvos são prefeitos de municípios do interior, a engrenagem costuma girar com mais rapidez. Decisões céleres, efeitos imediatos e caráter pedagógico não faltam. Não se trata de acusar ilegalidade, mas de registrar uma assimetria perceptível, que alimenta desconfiança e desgaste institucional.

O uso do segredo de Justiça, embora previsto em lei, pouco contribui para dissipar o incômodo quando aplicado a casos de evidente interesse público. Pelo contrário: o silêncio prolongado acaba comunicando mais do que uma decisão clara. Na política, a ausência de resposta também é resposta.

O resultado é um cenário em que pré-candidaturas avançam, alianças se reorganizam e o tabuleiro de 2026 começa a ser montado sem que episódios relevantes do passado recente tenham sido definitivamente esclarecidos. Mesmo sem julgar, a Justiça acaba influenciando o ambiente político.

A crítica aqui não é jurídica, mas institucional. Não se condena pessoas, não se antecipa decisões. Aponta-se, sim, um problema maior: quando a régua parece variar conforme o peso político ou o endereço do investigado, a confiança pública inevitavelmente se deteriora.

Se o nome continuará sendo TRE-RN ou se, aos olhos da população, já virou TREI-RN, isso é quase irrelevante. O essencial é outro: uma Justiça Eleitoral que demora a decidir corre o risco de parecer seletiva — e isso deveria incomodar muito mais do que uma ironia editorial.

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