18 de janeiro de 2026
Líder supremo do Irã admite que milhares foram mortos durante manifestações
Autor: Daniel Menezes
CNN - O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, reconheceu neste sábado (17) que milhares de iranianos foram mortos durante mais de duas semanas de protestos no país — mortes que ele atribuiu ao presidente dos EUA, Donald Trump, que, segundo ele, “incentivou abertamente” os manifestantes ao prometer-lhes “apoio militar” dos EUA.
Em um discurso à nação, descrito em seu site, Khamenei chamou Trump de “criminoso”, responsável “tanto pelas vítimas quanto pelos danos” durante os protestos antigovernamentais que eclodiram no final de dezembro, inicialmente motivados pela indignação pública com a grave situação econômica.
Khamenei, de 86 anos, não mencionou as táticas brutais das forças de segurança iranianas para reprimir os protestos.
Testemunhas e grupos de direitos humanos descreveram forças governamentais abrindo fogo contra manifestantes nas ruas e em telhados.
Mais de 3 mil pessoas foram mortas nos protestos, segundo a HRANA (Agência de Notícias dos Ativistas dos Direitos Humanos), sediada nos EUA.
A CNN não conseguiu verificar esse número de forma independente.
Um manifestante em Teerã relatou à CNN como ondas de pessoas da capital, desarmadas, inundaram as ruas nos últimos dias, enquanto forças governamentais disparavam de telhados e drones militares sobrevoavam a área.
“Eles estavam mirando com lasers e atirando nas pessoas no rosto”, disse a testemunha ocular, falando anonimamente por motivos de segurança.
“Eles massacraram pessoas… Mataram nossos filhos, os mais belos, os mais lindos e os mais corajosos”, acrescentou.
Em seu pronunciamento televisionado no sábado, Khamenei afirmou que os “manifestantes” envolvidos nos distúrbios se dividiam em duas categorias: pessoas apoiadas, financiadas e treinadas pelos EUA e por Israel, e jovens influenciados por eles.
Estes últimos, segundo ele, eram “indivíduos ingênuos manipulados pelos líderes”. Ele disse que esses jovens danificaram instalações da indústria de energia, mesquitas, instituições de ensino, bancos, instalações médicas e supermercados.
O governo iraniano frequentemente culpa agentes “estrangeiros” pelos protestos violentos no país, sem apresentar provas.
“Ao ferirem as pessoas, eles (os ‘manifestantes’) mataram milhares delas”, disse Khamenei.
“Algumas foram mortas com uma força desumana… de forma completamente selvagem”, continuou o líder iraniano.
“Essas ações faziam parte do plano premeditado da sedição”, concluiu.
O manifestante em Teerã disse que pessoas presente no protesto atearam fogo para combater o gás lacrimogêneo e bloquearam ruas para impedir ataques de motocicleta da Basij, o grande grupo paramilitar voluntário do Irã, criado por Khamenei e frequentemente usado para reprimir manifestações.
“A única arma que as pessoas tinham eram pedras, que elas nem tiveram chance de atirar”, disse ele.
“Sei que há uma grande chance de eu ser morto, mas ainda assim irei porque quero recuperar o Irã”, afirmou.
No início da semana, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, contestou o número de mortos divulgado como “milhares”, dizendo a Bret Baier, da Fox News, que o número real era de centenas e que as sugestões em contrário faziam parte de uma “campanha de desinformação”.
Em seu discurso de sábado, Khamenei declarou que “os EUA devem ser responsabilizados”.
Durante os protestos, Trump incentivou os manifestantes a manterem as manifestações e a “tomarem o controle” das instituições do país, garantindo-lhes que “a ajuda está a caminho”.
“Consideramos o presidente dos EUA um criminoso, tanto pelas vítimas e danos, quanto pelas calúnias que lançou contra a nação iraniana”, disse Khamenei, segundo uma tradução de trechos do discurso publicada em seu site.
“Um homem doente”
Trump respondeu prontamente, pedindo uma nova liderança no Irã e se referindo a Khamenei como um “homem doente” que deveria “governar seu país adequadamente e parar de matar pessoas”.
Em uma entrevista concedida ao veículo Politico na manhã de sábado, Trump afirmou que Khamenei é culpado, “como líder de um país”, pela “destruição completa do país e pelo uso da violência em níveis nunca antes vistos”.
“Para manter o país funcionando — mesmo que esse funcionamento seja em um nível muito baixo — a liderança deveria se concentrar em administrar o país adequadamente, como eu faço com os Estados Unidos, e não em matar milhares de pessoas para manter o controle”, disse Trump.
O líder supremo reconheceu em seu discurso que a situação econômica do Irã é “verdadeiramente difícil”, mas pediu que as pessoas se unissem “na defesa do sistema islâmico e do amado Irã”. Ele pediu aos funcionários do governo que redobrassem seus esforços no fornecimento de bens essenciais, ração animal e outras mercadorias indispensáveis.
Citando os protestos pró-governo de segunda-feira em todo o Irã, Khamenei afirmou no sábado que os protestos foram “extintos”.
Situação da Internet
Em meio aos protestos que foram recebidos com violenta repressão pelas forças de segurança, o governo iraniano cortou as conexões de internet em 8 de janeiro. Mas na manhã de sábado, houve um “ligeiro aumento” na conectividade, segundo a organização de vigilância de segurança cibernética NetBlocks.
“A conectividade geral permanece em (cerca de) 2% dos níveis normais e não há indicação de um retorno significativo”, acrescentou a NetBlocks em um comunicado no X.
A agência de notícias semioficial iraniana Mehr informou no sábado que a internet foi restabelecida para "alguns assinantes", afirmando que o bloqueio foi implementado devido ao que descreveu como "distúrbios terroristas" e para "garantir a segurança do país e de seus cidadãos".
Algumas ligações internacionais para telefones fixos e mensagens de texto locais também pareciam estar funcionando novamente, disse um morador de Teerã à CNN no sábado. A conexão com a internet em si permanece instável no país, disse o morador.
Destino dos manifestantes
Em seu pronunciamento de sábado, o líder supremo do Irã prometeu consequências para aqueles que participaram dos "distúrbios", mas não especificou quais seriam as punições.
"Não levaremos o país à guerra, mas não deixaremos impunes os criminosos domésticos e — mais importante — os criminosos internacionais", disse ele.
"Este assunto deve ser tratado usando nossos próprios métodos e a abordagem correta", disse Khamenei
Mais de 24 mil manifestantes foram presos, segundo a Hrana. A CNN não conseguiu verificar esse número de forma independente.
Mas os temores aumentaram quanto ao destino de alguns manifestantes depois que o procurador de Teerã afirmou, na semana passada, que alguns deles poderiam enfrentar a pena de morte por suas ações, segundo a agência de notícias semioficial Tasnim.
No início da semana, o Departamento de Estado afirmou que as autoridades iranianas planejavam executar um manifestante, Erfan Soltani. Sua família disse posteriormente que a execução foi adiada, e Trump afirmou ter recebido garantias de que não havia planos para execuções no Irã.
O judiciário iraniano, no entanto, afirmou que Soltani não havia sido condenado à morte.
Em sua entrevista à Fox News, o ministro das Relações Exteriores do Irã também indicou que não havia planos para enforcar manifestantes.
"A melhor decisão que ele já tomou foi não enforcar mais de 800 pessoas dois dias atrás", disse Trump sobre Khamenei no sábado, quando questionado pela Politico sobre a possibilidade de uma operação militar dos EUA no Irã.
Em resposta aos comentários de Trump, o procurador de Teerã, Ali Salehi, não confirmou nem negou a intenção de executar tantas pessoas. “Nossa resposta é firme, dissuasiva e rápida”, disse ele à mídia estatal iraniana.
“Atualmente, um grande número de casos resultou em indiciamentos e foi encaminhado aos tribunais”, afirmou.
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