12 de janeiro de 2026

Polícia de imigração de Trump recruta supremacistas brancos para acelerar deportação

Autor: Daniel Menezes

Por Jamil Chade - ICL - A agência de imigração dos EUA lançou uma operação inédita para recrutar milhares de jovens americanos e ampliar a onda de prisão e deportação de estrangeiros. Com cartazes que remetem a um clima de que o país está em guerra, um dos focos foi apelar ao movimento supremacista branco para se transformar na maior força policial doméstica federal.

No fim de semana, milhares de americanos tomaram as ruas do país para protestar contra o ICE, depois que uma mulher foi morta por um de seus agentes. Imediatamente, o governo Trump passou a veicular a ideia de que se tratava de um “ato de terrorismo doméstico” por parte da vítima, apesar de os vídeos mostrarem outra realidade.

A operação de manipulação descarada por parte das autoridades abriu um debate sobre os métodos da polícia de imigração, seu processo de recrutamento e seu verdadeiro motivo de tanto fortalecimento nos últimos meses.

Em meados de 2025, as metas do governo Trump de realizar 3 mil prisões por dia enfrentaram um desafio estrutural diante da falta de agentes, prisões e voos para retirar os estrangeiros do país. Com um orçamento extra de US$ 30 bilhões, o ICE deu início à construção de centros de detenção e passou a fechar acordos com empresas que realizam voos charter.

No que se refere ao recrutamento, a meta era a de convocar 12 mil novos policiais. A busca era por “americanos patriotas” e, em apenas quatro meses, a força de 10 mil homens passou a ter 22 mil.

Para isso, a operação envolveu a implementação de uma estratégia de recrutamento em tempos de guerra. Assim, foram destinados US$ 100 milhões para a disseminação de propaganda que chegasse a defensores do direito ao porte de armas e supremacistas.

Cartazes remetem a uma convocatória para a guerra, com o Tio Sam pedindo que os americanos se unam contra um inimigo que estaria invadindo o país.

“Junte-se à missão de proteger a América”, diz uma delas. “Quer deportar imigrantes ilegais com seus melhores amigos?”, diz outra.

Há também uma referência ao passado idealizado. Um dos pôsteres mostra um carro clássico estacionado em uma praia. E a frase: “América Depois de 100 Milhões de Deportações”.

Existem ainda as referências ao Destino Manifesto. “A América te chama” ou “A América precisa de você”.

Invasores

O recrutamento também abusa do uso da palavra “invasores” como argumento para convocar “patriotas” a se unir ao trabalho de deportação.

Para a entidade Southern Poverty Law Center, que monitora o discurso de ódio nos EUA, o termo não aparece por acaso.

“Durante décadas, grupos e figuras anti-imigrantes, nacionalistas brancos e neonazistas têm usado termos como “invasão” ou “invasores” para descrever imigrantes e migrantes — muitos dos quais são pessoas de cor — que entram no país”, alertam.

“A ideia se encaixa na teoria da conspiração racista e antissemita da “grande substituição”, que afirma que os brancos estão sendo deslocados e substituídos nas nações ocidentais”, diz a entidade.

Segundo o grupo, o uso do termo “invasão” sugere que os imigrantes são inerentemente prejudiciais e indesejáveis ​​e devem ser recebidos com uma resposta militar.

A ambiguidade dos cartazes era outra de suas forças. Os recados aos supremacistas eram dados de forma sutil, sempre deixando uma brecha para que qualquer um que denunciasse a operação fosse qualificado apenas como uma “exagerado”.

Sofisticada, a propaganda ainda assim trazia elementos chocantes. Num deles, a imagem é de colonos em sua marcha ao Oeste, uma simbologia na história americana de conquista do território e a expulsão ou morte dos nativos.

Um dos cartazes traz as palavras “Heritage” e “Home” (patrimônio e lar) em letras maiúsculas. Grupos neonazistas usam o H.H. como uma referência à ‘Heil Hitler’.

Muitos dos cartazes ainda trazem mensagem com 14 palavras. Para nacionalistas brancos, trata-se de uma referência oculta a uma tradicional frase usada pelo movimento e que conta com o número exato de palavras: “Devemos garantir a existência do nosso povo e um futuro para as crianças brancas”.

De acordo com a Southern Poverty Law Center, um dos casos mais explícitos de referência à extrema direita é uma propaganda que lança a pergunta: “Qual o caminho, americano? (Which Way, American Man?”.

O texto seria inspirado no livro do nacionalista branco William Simpson “Which Way Western Man?. Em seu momento, ele foi publicado em 1978 por uma editora associada à Aliança Nacional neonazista.

No livro, o autor não esconde sua xenofobia. Um dos capítulos se chama “A Necessidade da Eugenia”.

Alguns dos trechos da obra que serve de referência à propaganda do ICE:

No caso de um país como os Estados Unidos, se a essência original e seus valores devem sobreviver, então todos os estrangeiros, como negros, judeus e orientais, terão que ser expulsos e mantidos fora. A imigração terá que ser estritamente limitada aos grupos étnicos mais intimamente relacionados, por sangue e tradição, aos grupos étnicos que deram origem ao país.

Em outro trecho, a referência aos judeus é explícita:

Permitam-me começar declarando francamente que estou preparado para aceitar a violência por parte do nosso povo. O domínio dos judeus sobre nós não será afrouxado até que quebremos seu aperto. Hitler sentiu que precisava ir às ruas. Toda abordagem normal ao seu povo foi proibida. Hoje, nos deparamos com uma situação muito semelhante aqui. […] Se não quisermos ser destruídos, então devemos lutar. Não sou naturalmente um homem de violência, mas há uma coisa da qual me assusto mais do que com a violência ou suas consequências, e essa coisa é a ideia de que nosso povo não possa se levantar para se livrar da morte que lhe é imposta.

Para a entidade, portanto, não existem dúvidas de que a agência federal utiliza imagens e slogans nacionalistas brancos e anti-imigrantes em materiais de recrutamento. “Além disso, embora as imagens de recrutamento apresentem quase exclusivamente pessoas brancas, as mídias sociais da agência publicam desproporcionalmente imagens de pessoas negras e pardas acusadas de violar as leis federais de imigração”, indicou.

“Em alguns casos, as imagens e a linguagem parecem vir diretamente de publicações antissemitas e neonazistas e de um site nacionalista cristão branco”, constata.

Milicianos

Um dos casos destacados pela Southern Poverty Law Center se refere a um pôster que apresenta dois homens brancos, um mais velho e um mais novo, com a legenda: “Estamos levando o vínculo entre pai e filho a um novo patamar.” “Um nível totalmente novo.” Os dois homens aparecem em frente a um fundo com a bandeira americana, vestindo trajes militares e coletes à prova de balas, enquanto empunham fuzis de assalto.

“Os homens não possuem nenhuma identificação visual que os associe a qualquer agência governamental. Em vez disso, parecem mercenários ou membros de uma milícia extremista antigovernamental. O cartaz do ICE levanta questões sobre que tipo de pessoas, de que origens ideológicas, a agência está visando para recrutamento”, apontam.

Para Lindsay Schubiner, diretora de programas do Western States Center, as postagens nas redes sociais não visam apenas recrutar funcionários, mas também normalizar a desumanização de imigrantes”.

“Ao mesmo tempo, o preconceito e a desumanização envoltos na bandeira americana condicionam os americanos a aceitarem os horrores exacerbados e o flagrante desrespeito aos direitos civis que o ICE está infligindo às nossas comunidades”, completa.

Compensação

Outro caminho foi o pagamento de US$ 8 milhões para que influenciadores convencessem os mais jovens a optar por um trabalho com o ICE.

Além do apelo nacionalista, a proposta vinha com uma oferta generosa para uma pessoa sem experiência no setor de segurança. Os salários poderiam chegar a US$ 90 mil por ano, além de um bônus de contratação de até US$ 50 mil. O governo ainda prevê um perdão aos empréstimos estudantis de até US$ 60.000 e benefícios de aposentadoria.

Algo que tem preocupado as entidades de direitos humanos é a falta de treinamento dos novos agentes. Diante da pressa de Trump por deportar os estrangeiros, os cursos que deveriam ocorrer em 18 semanas foram reduzidos para apenas oito. Não há mais a necessidade de que o agente fale espanhol.

[0] Comentários | Deixe seu comentário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.