10 de janeiro de 2026
A demora no julgamento do crime eleitoral em Natal em 2024 escancara o risco concreto de repetição do mesmo método em 2026
Autor: Daniel Menezes
A condução de episódios sensíveis pela Justiça Eleitoral do Rio Grande do Norte tem produzido um efeito colateral preocupante: a sensação de permissividade. Não se trata de imputar crimes ou antecipar juízos definitivos, mas de apontar que a ausência de respostas claras e tempestivas a fatos graves cria um ambiente propício à repetição de práticas questionáveis no próximo ciclo eleitoral. Quando o sistema de controle falha em transmitir previsibilidade e rigor, a mensagem política que se emite é perigosa.
Esse alerta ganha força diante da atuação continuada de um mesmo grupo político desde 2022, que permanece coeso e com estratégias claras para 2026. O prefeito Paulinho Freire já sinaliza envolvimento direto na disputa eleitoral, com empenho explícito na tentativa de eleger a esposa, Nina Souza, deputada federal. Decisões administrativas recentes — como a aprovação de pedido de empréstimo direcionado à secretaria por ela ocupada — podem até encontrar respaldo formal, mas politicamente reforçam a percepção de confusão entre gestão pública e projeto eleitoral. Soma-se a isso o histórico de alinhamento com o ex-prefeito Álvaro Dias, cuja influência foi decisiva em 2022 e 2024, inclusive na consolidação de bases eleitorais e no fortalecimento do grupo no Legislativo estadual.
No pleito municipal de 2024, episódios amplamente debatidos na sociedade — como a circulação massiva de desinformação associando a então candidata Natália Bonavides a pautas criminais — só receberam contenção institucional do Tribunal Regional Eleitoral nos últimos dias da campanha. Antes disso, a ausência de uma intervenção firme contribuiu para a normalização do ataque como método. O problema se agrava quando, até hoje, não há clareza pública sobre a apuração de fatos classificados por muitos observadores como os mais graves daquele processo eleitoral. O enquadramento sob sigilo, com a justificativa de proteção à privacidade, impede que o eleitor natalense compreenda plenamente o que está em jogo e quais limites foram — ou não — ultrapassados.
A democracia não se fragiliza apenas por atos explícitos, mas também pelo acúmulo de omissões. Quando não há transparência, quando a sociedade não tem acesso ao teor completo das denúncias e quando as decisões chegam tarde demais para produzir efeito pedagógico, estabelece-se uma espécie de licença tácita para a reincidência. O alerta é simples e urgente: sem uma postura mais clara, pública e rigorosa da Justiça Eleitoral sobre o que aconteceu em 2024 na eleição de Natal, 2026 corre o risco de repetir — em escala maior — os mesmos vícios, agora sob a convicção de que tudo pode ser tentado, porque pouco será efetivamente contido.
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