1 de outubro de 2025

Brasil elogia plano de Trump para Gaza e pede que ele seja aceito por Hamas e Israel

Autor: Daniel Menezes

Estadao - O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, elogiou nesta quarta-feira, dia 1º, o plano de paz para a Faixa de Gaza proposto pelo presidente dos Estados UnidosDonald Trump. O americano deu um ultimato ao grupo terrorista Hamas sobre a proposta. Israel a aceitou.

Na primeira reação oficial do País, o chanceler afirmou que vai o governo brasileiro vai “aplaudir publicamente” a proposta de Trump.

“Sem dúvida nenhuma o Brasil aplaude a iniciativa e fazemos votos de que ela surta efeito, que seja aceito por todas as partes”, afirmou Vieira, durante audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, na Câmara dos Deputados.

O ministro Mauro Vieira durante reunião do G-20 neste ano Foto: Angelina Katsanis/ AP

O ministro Mauro Vieira durante reunião do G-20 neste ano Foto: Angelina Katsanis/ AP

O teor foi revelado pelo presidente americano, na segunda-feira, dia 29, quando recebeu em Washington uma visita do premiê israelense, Binyamin Netanyahu.

“O Brasil está acompanhando. Somente ontem no final de tarde tomamos conhecimento do plano que foi lançado. Sem dúvida nenhuma vamos aplaudi-lo publicamente, e possivelmente ainda no dia de hoje, porque o objetivo do plano é justamente o que nós sempre defendemos desde o início do conflito”, relatou o ministro.

O plano prevê um cessar-fogo, a libertação dos reféns israelenses em um prazo de 72 horas, o desarmamento do Hamas e uma retirada gradual das forças israelenses da Faixa de Gaza.

Além disso, segundo a proposta, Trump vai coordenar uma autoridade de transição, que contará com a presença, entre outros, do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Os países árabes e muçulmanos, incluindo os mediadores Egito e Catar, saudaram os “esforços sinceros” para alcançar a paz após quase dois anos de uma guerra devastadora.

O Reino Unido, a França, a Alemanha e a Itália apoiaram firmemente a iniciativa. A Rússia também expressou seu apoio. O secretário geral da ONU, António Guterres, chamou “todas as partes a se comprometerem com o plano de paz”.

Cobranças e críticas

Durante a audiência pública, o ministro foi questionado sobre a relação com Israel e o fato de o País ter saído, em 18 de julho, da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (HIRA), ato que motivou protestos do governo Netanyahu, com o qual Lula vive uma crise diplomática. A adesão do país ocorreu no governo Jair Bolsonaro, em 2021.

O chanceler respondeu que o motivo foram a criação de obrigação de contribuições financeiras e ainda os critérios para definição do que é antissemitismo, segundo a aliança. Para o ministro, a caracterização adotada acaba por amordaçar críticas pertinentes ao governo israelense.

Vieira afirmou que havia “total falta de clareza” quantos aos limites do discurso e da ação política não recomendava permanecer na aliança. O chanceler citou que a definição da HIRA permitia “politização” e “manipulação” do conceito dentro da aliança, além de “generalizações fáceis”.

“Não estamos de acordo com a instrumentalização do antissemitismo para inibir críticas contra as graves violações de direitos humanos e do direito internacional humanitário na Faixa de Gaza e na Cisjordânia cometidos pelo atual governo israelense”, disse.

O ministro afirmou ainda que o governo de Israel poderá credenciar novo embaixador em Brasília (Lula decidiu deixar o posto correspondente vago em Tel Aviv) e que o pedido será considerado, se submetido. O governo brasileiro, porém, retardou por meses o aval ao último nome submetido por Netanyahu, uma forma de rejeitá-lo tacitamente. Israel acabou retirando a indicação.

Em outra resposta a cobranças de parlamentares da oposição, Vieira disse que não existem “evidências robustas” de grupo Hezbollah tenha presença no Brasil e que a informação de que atuam na Tríplice Fronteira é fruto de “especulação” há cerca de 20 anos, por parte de funcionários dos EUA.

O ministro disse também que o governo brasileiro afirmou ao governo israelense que eles são os responsáveis pela segurança das pessoas na flotilha, composta por apoiadores de palestinos. Eles se dirigem à costa de Gaza. Espanha e Itália escoltavam as embarcações.

Venezuela

O ministro também criticou o governo Trump, pelo envio de forças militares, como um frota aérea e naval, ao Mar do Caribe, sob o argumento de combate ao narcotráfico. Os militares americanos já bombardearam embarcações que saíam da Venezuela, acusadas de envolvimento com cartéis de drogas como o Trem de Aragua.

O chanceler de Lula disse ser “preocupante” a equiparação entre terrorismo e criminalidade comum. Vieira que o caso é “grave”. A ditatura de Nicolás Maduro se prepara para uma potencial invasão.

“Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento”, disse o chanceler. “Assistimos hoje na América Latina e no Caribe à instrumentalização do combate ao terrorismo para justificar sanções e invasões em outros países.”

O ministro também atualizou o valor da dívida da Venezuela com o Brasil, que agora soma US$ 1,8 bilhão (R$ 9,63 bilhões) - dos quais US$ 1,270 bilhão (R$ 6,79 bilhões) são parcelas atrasadas e US$ 529 milhões (R$ 2,63 bilhões) em juros, até o fim de julho.

A ditatura chavista abandonou a mesa de negociação e parou de responder ao governo brasileiro. Segundo ele, a Venezuela não havia indicado divergências de valor significativas, e o Brasil busca a retomada dos pagamentos, como Caracas havia sinalizado.

Porém, o ministro considera que a falta de engajamento venezuelano no Clube de Paris dificulta uma solução - uma mudança “não é factível no curto prazo”, porque a Venezuela teria que normalizar a relação com Banco Mundial e FMI. Ele citou as sanções unilaterais ao sistema financeiro como fator impeditivo para pagamentos e remessas de dinheiro para fora do país.

O ministro também foi questionado pela oposição sobre a visita de Lula à ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner, em Buenos Aires. O petista foi ao apartamento dela, que cumpre prisão domiciliar por condenação em caso de corrupção.

O ministro disse não entender como um gesto de afronta à Justiça argentina, pois teve aval do Judiciário. Ele afirmou que a visista de Lula ocorreu a pedido da defesa da ex-presidente, em caráter privado. Deputados criticaram o chanceler e Lula por terem posado para fotos com apoiadores dela - o presidente portou cartaz com a inscrição “Cristina Livre”./ Com AFP

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